a minha comunistazinha

Já me lembro do que queria escrever, lembrei-me disto ontem enquanto andava a pé para ir buscar a minha filha, depois de ler mais uns capítulos do Anna Karenina. No fundo é um raciocínio que tenho sempre que há eleições à vista.

Em Tolstói (como em Dostoiévsk), as opiniões políticas das personagens são como uma continuidade e um reflexo da sua personalidade ou, no caso de Lévin, do próprio estado de espírito e por isso é mutável.

Lévin é uma excepção, pois para além de pensar muito nas coisas em geral, incluindo a organização da sua quinta, o casamento e a morte, fica angustiado com os problemas que, diga-se, surgem de forma empírica, prática, com o convívio e observação do que o rodeia e as suas experiências e conversas.

A maior parte das personagens ou não pensa em coisas complexas ou têm mesmo opiniões que são uma continuidade do seu próprio ego, como Aleksei Alexandrovitch que não dispensa um bom debate e é liberal porque no seu modo de vida é suposto ser liberal  e ler jornais liberais. Uns e outros são quase todos imutáveis nos pensamentos (excepto Levin) e debatem “para nada” pois na verdade sempre que chegam a contradições incontornáveis, recuam.

É pois uma realidade que muitas pessoas adultas têm opiniões políticas imutáveis ou apenas mutáveis por questões sentimentais, como se perante problemas complexos cheios de contradições como resolver um problema de dívida, desemprego ou de maximizar o bem comum, fosse de qualquer utilidade uma abordagem semelhante à que se tem com a religião ou futebol.

Essa filiação emocional poderá ser um mecanismo de redução dos problemas a conceitos manejáveis e soluções compreensíveis que sejam intuitivas dentro de um próprio esquema de valores. Sem dúvida que dão um sentimento de pertença, de comunhão, de partilha com o outro que pensa como nós, contra os que não pensam como nós e talvez eu próprio veja isso como algo positivo em muitos casos, especialmente por facilitar escolhas.

É confortável, também, ter uma ideologia e recuar sempre que surge uma contradição que a ameace, que, aliás, raramente se encontra se não se perde tempo a estudar ou pensar nas merdas. Mas uma pessoa não pode estar sempre a confrontar ou a estudar ou então é ansiosa e torturada, como o Lévin de Tolstói.

Como estas coisas do desemprego e dívida e do euro são complexas, é possível  qualquer uma das opiniões sobre o emprego e a dívida e do euro, um copo meio cheio e meio vazio. Nos políticos há eleições para ganhar, ou seja, há um motivo para o político procurar ver o copo meio cheio e um motivo para ver um copo meio vazio – ou mesmo totalmente vazio e totalmente cheio. Já é um pouco mais surpreendente  que cidadãos sem qualquer benefício palpável adoptem uma posição de adeptos do Benfica ou do Sporting. Um eleitor deve em teoria ser capaz de votar em qualquer coisa  ou pensar em qualquer coisa se convencido e não é isso que sucede normalmente.

Depois , este raciocínio levou-me à questão da própria opinião política ser um reflexo da personalidade e dos genes, do estado de espírito em geral, da experiência particular e se eu teria capacidade de ir um pouco mais longe ainda e distanciar-me da minha personalidade que resulta de tudo o que eu fui e se não era mais simples não ir por aí.  Por exemplo, eu espero que a coligação PSD/CDS ganhe, mas não sei até que ponto isso não advém em boa parte de factores emocionais irracionais que me fazem passar por cima de factores como elogios a Dias Loureiro ou Relvas. Então pensei nesses factores emocionais. Agora que as coisas melhoram, seriam corridos e vinha o PS de novo. Isto parece-me injusto e é emocional. Acharia injusto na mesma se fosse simétrico, se fosse Costa a aplicar 4 anos de medidas duras e agora viesse um Passos Coelho todo lampeiro e gingão, a mamar com taxas de juro em mínimos históricos, desemprego a baixar a pique, exportações a aumentar pelo euro fraco etc. etc. Outro factor: desenvolvi uma hostilidade para com  a extrema esquerda com o exemplo prático do Syriza. Sei que eles estão profundamente errados (PCP, BE, Livre etc.) e muitas vezes são simplesmente parvos em geral. Portanto, se eles ficam encavados e com o cravo de abril murchinho nas mãos, dá-me prazer, talvez um prazer infantil, confesso, mas é isso, no fundo, gosto de os ver a perder. Gostava muito que isso sucedesse e abria uma garrafa de champanhe do bom, do liberal e telefonaria à minha mãe para gozar com ela.  No entanto, se o PS ganhar, também não vejo como um desastre pois o plano deles tem coisas interessantes. Não antipatizo com António Costa como antipatizava com Pedro Passos Coelho, um homem que eu pura e simplesmente abominava há 4 anos (preconceitos, preconceitos!) e que volvidos 4 anos acaba por ser o primeiro ministro que eu, depois de Mário Soares, preferi.

Entretanto cheguei à creche e interrompi o meu fio de raciocínio. Fui levantar a minha comunistazinha. Quando como um iogurte ou isso tenho de lhe distribuir colheres mesmo quando 2 minutos antes me disse que não queria. Ainda hoje disse “a Lua é minha!” e eu tentei explicar-lhe que havia coisas dela e coisas que não eram dela (propriedade privada etc.), que a lua não era dela e ela insistiu que a Lua era dela. Mas nela é normal, nem tem dois anos. O Varoufakis tem 54 anos.

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15 thoughts on “a minha comunistazinha

  1. huahuahuahua, safaste-te com a última frase.

    Agora a sério, eu consigo perceber perfeitamente as posturas da “esquerda” e da “direita” na questão da dívida grega. Como votante de direita, sempre, nunca votei à esquerda do PSD, sei que temos de pagar dívidas que contraímos e acabou, quanto menos Estado, melhor Estado, independência ou morte, e tal. Mas não concordo com o absurdo dos juros cobrados, o que me leva a dizer: calminha aí com as cobranças. Ao que tu poderias responder: és uma comunista enrustida, no que eu argumentaria: essas questões de dividir tudo entre esquerda e direita são redutoras, é isso que leva, lá está, a algo de que falas que associas a questões emocionais e que deve ter sim a ver com isso, pelo menos vai ao encontro da tua conclusão, que se prende com o eu achar que vira teimosia e uma neurose quando tu não adotas uma posição só porque ela pode ser conotada com a esquerda, quando do que se trata é de humanismo puro e duro, de não comprometer a dignidade das pessoas. Outro dia li um artigo sobre a Grécia que dizia que o objetivo deste tipo de cobrador nunca é ver a dívida sanada, mas sim fazer do devedor um dependente e por isso dominá-lo para todo o sempre, humilhando-o sempre que pode, apenas para fazer valer a sua psicose de poder. É isto que a Alemanha está a fazer com a Grécia, sem que a Grécia seja uma vítima, como nós não somos, temos obrigação, nações velhas que somos, de saber que não há almoços grátis e os portugueses em particular precisam de crescer de uma vez por todas e de parar de querer um paizinho.

    O Soares, O SOARES, Lourenço, desculpa os gritos, peloamordedeus… (O Cavaco foi um bom primeiro ministro, acho que o melhor…)

    Last but not least, gostei imenso de caminhar pela tua cabeça e seguir o teu raciocínio. e desculpa se me alonguei de mais no comentário. bjos

    1. Epá, não gostei nada do Cavaco como primeiro ministro, o cavaquismo foi um suplício (curiosamente, acho-o um bom presidente da república), mas teria de estudar a questão à distância. O Soares só percebi mais tarde porque era criança, apesar de gostar dele sempre porque era de esquerda por causa dos meus pais (professores, todos os professores são do PS). Mas isso é subjectivo, uma pessoa pode embirrar com o Cavaco para sempre só por causa de um bolo rei ou de um “nunca me engano e raramente tenho dúvidas”. Não concordo com essa visão da dívida e da alemanha e da grécia. O que é a alemanha? O que é a grécia? por acaso são pessoas com um feitio assim e assado? Enfim. Eu gosto da Merkl, por exemplo, e gosto do Schauble. Gosto do Tsipras a pouco e pouco, vamos ver, gosto da parte do Syriza que não é maluca e que se deixou de merdas, do Varoufakis gostava e deixei de gostar a pique ao fim de uns dias. Outro é o PAcheco Pereira, antes achavam-no um idiota porque ele era pro-Bush, pro-guerra no Iraque e anti Bloco de Esquerda, agora adoram-no porque ele não gosta de Passos Coelho e com outras pessoas acontece o contrário (embora em Portugal seja raro encontrar pessoas pro-George w Bush, é preciso ser-se muito bronco). Não penso muito em ser de direita ou esquerda, já disse noutras ocasiões, sou liberal.

    1. Cá está um exemplo. O problema do comentador jc – que é o mesmo de sempre, sendo ou não sendo – não é com a “crítica” de Tolstói porque eu sou idiota que sou com regularidade e sobre diversos temas e o jcs nunca me alerta para a minha idiotice nesses casos. Aparece porque anda por cá e gosta muito de mim, mas quando eu cometo o crime de representar num plano político algo de que não gosta nada, ocorre uma contradição, soa um alerta: “não posso deixar isto impune, então este idiota gosta do Passos Coelho?” Nas eleições de Setembro, pensarei em vocês todos, quando tirar o champanhe do frigorífico.

  2. O que ele faz às pessoas, o malvado do DRD4.

    Eu, que disto nada sei, detesto as posições anquilosadas quer de uns quer de outros (‘esquerda’ e ‘direita’), de que só é viável o que cada um dos lados propõe. Mais do que interesse em resolver problemas, parece existir uma vontade imensa de impôr a sua solução, não dar parte de fraco, não admitir que o que propõem pode não ser o melhor. O tal copo meio cheio ou meio vazio de que falas, que justifica quer uma quer outra posição.

      1. Enganas-te. A lua é da Julinha, conforme ela afirma, assertiva (e ainda bem) da mesma forma que é tua, minha, da Isa, do ZMB, do/da catch 22, do/da jc. Até do Varoufakis. Se não pertencesse a todos, não seria de ninguém com a coragem de o dizer, assim como tu tiveste o privilégio de o escutar e a generosidade de o transmitir. Isto acontece, de resto, no universo dos apaixonados, onde a lua tem papel de relevância nada descartável, eternamente prometida à amada/ao amado.

        Vai-se a ver e o teu pragmatismo deixa muito a desejar 😛
        Do teu romantismo não falaremos, só abaixaremos a tola, olhando de lado, controlando ansiedades, ‘cos, after all, we’re all just kids, right?

      2. Eu quero que a Lua seja dela, pelo menos uma parte. O turismo especial é uma hipótese. Quero que ela seja a família Hilton dos hotéis do espaço. Que mal tem isso?

  3. Ah, sê directo, adoras a tua filhota, queres o melhor para ela, nada de extraordinário. Imagina, proponho-te eu, que ela desejará um dia ser cozinheira de subúrbio, saltimbanco, que farás tu? Deserdá-la, quebrar o contacto, desatar a falar de cabecinha em lateral ‘defensiva’? Stop being a diva, you Lou 🙂

    1. Isso é impossível. Sou irónico com isso do proprietária de hoteis obviamente. Admito que pode querer ser algo mais marginal ou incerto como artista ou atleta, algo que não seja uma carreira típica, e ser complicado por causa disso, pelo lado material ou incerto ou arriscado, mas ter expectativas deprimentes a esse ponto de querer meramente ser uma cozinheira de subúrbio ou saltimbanca estilo xapitô sem desprimor, mas é impossível, isso é quase tão mau como ela querer ser socióloga ou algo assim.

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