adeus Jon Stewart, ou a cultura branca social media global a gostar dela própria

stewart

O Stewart, uma consciência atenta e lutadora exposta às aberrações óbvias e extremas dos EUA. Emitia emoções de forma muito intensa, indignado, para um plateia com total empatia e para espectadores com total empatia.

Tornou-se assim uma espécie de masturbação, de catarse ou oração diária da consciência dos brancos internautas unidos pelos social media, os seus 20 ou 30 minutos de “sou uma boa pessoa, eu preocupo-me com as coisas, eu sou pelas coisas boas, amen”.

Naturalmente, para ser eficaz, o programa nunca aprofundava nada, nunca tinha peças longas, era curtinho, tinha palmas, banda sonora pujante e tentava, sem grande sucesso ter humor (o Jon Oliver seria uma excepção).  Nunca teve humor ou sátira. O salto de inteligência necessário para ler ironia, não existia ali, como não existe em uma só piada de Stewart: quando ele diz o oposto do que pensa faz pantominas faciais e adopta tom de voz palhaço, para o caso de haver dúvidas.

Tudo decorria num ritmo frenético, clips do troglodita da NRA, da FOX News,  do Tea Party etc. a dizer uma alarvidade qualquer e pronto. Era tão eficaz que eu próprio via entusiasmado na primeira semana em que descobri isto há anos e anos, e depois mais distraidamente, enquanto jantava, se não desse nada melhor, até me limitar a 1 ou 2 minutos semanais para confirmar a minha impressão e frustração quando aparecia um convidado interessante e este ser corrido com 2 ou 3 perguntas apressadas porque de outro modo a concentração do espectador começa a fazer zaping no iphone.

Todas as contradições eram resolvidas com recurso a montagem cirúrgica do pior do estereótipo oposto às próprias ideias deste grupo de gente, isto é, se houvesse 200 fontes de informação opostas a uma boa intenção como o Obama Care, era certo que eles não iam passar os segmentos com argumentos que seria preciso rebater ou ponderar e suscitar um debate, um meio termo: iam procurar precisamente o tipo mais bronco de todos, a gaffe, a boutade, um Donald Trump ou uma Sarah Pallin, e fazer-nos saltar do sofá.

E os brancos europeus, obviamente, adoravam o programa porque também lhes reforçava o estereótipo do americano, esquecendo-se por momentos que por cá quem pegam fogo a gatos ou se manifestem pela libertação do político português mais corrupto de sempre com canções pindéricas.

Jon Stewart era parte da capitulação da profundidade da informação, do estudo,  do debate, da argumentação lógica em detrimento da superficialidade mediática eficaz que domina. Ele próprio reconhece isso parcialmente numa mítica aparição num crossfire em que de destrói dois jornalistas (sem argumentos, só com ideias e sentimentos vagos) dizendo-se humildemente (e hipocritamente) comediante e não jornalista como eles e que é a eles que compete informação séria.

Não restam dúvidas que ele é cativante para branco urbano como pastor da iurd para brasileiro pobre. Mas é só isso.

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9 thoughts on “adeus Jon Stewart, ou a cultura branca social media global a gostar dela própria

  1. Hummmmm, o programa passa na Comedy Central… Estavas ah espera de que? Hard news? E nao estas a ser totalmente justo. Eu nao era espectadora assidua mas lembro-me de ver episodios onde se criticava democratas e politicas de esquerda. Esta critica nao eh totalmente justa.

  2. Acho a critica muito injusta e parece-me haver aqui algum preconceito politico ou mera necessidade de não “ir na corrente”..
    Mas enfim, são opiniões…o que me escapa e tenho que questionar é: porquê a referência racial?

    1. A referência racial veio ter comigo um dia em que vi um site brutal chamado Stuff White People Like e me vi reflectido. http://stuffwhitepeoplelike.com/ E vi-me como esse estereótipo, por exemplo, achar as TED talks uma coisa espectacular. Há qualquer coisa de problemas do 1º mundo. Não há necessidade de ir na corrente, tinha a impressão contrária, que Stewart era unânime nos meus amigos e amigas. Não tenho preconceit político, Stewart defende geralmente o que uma pessoa razoável defenderia e não me aconteceu pensar “este gajo está completamente errado”. Só acho que é só isso. É como… é como quando no Inimigo Público gozavam com o Santana Lopes. É o Santana Lopes. Não é muito interessante gozarem com ele, basta o Santana Lopes. Não me sei explicar melhor.

  3. Gajo que está convencido que o psd vai ganhar as eleições o que pode nem ser assim tão prejudicial para a nação quanto isso. diz:

    tiro completamente ao lado.

    jon stewart não é nem comediante nem jornalista muito menos um gajo que alguma vez teve necessidade ou vontade a aprofundar o que quer que seja. jon stewart é um empreendedor que encontrou num ambiente profundamente confuso e a passar uma transformação brutal – a comunicação social – um nicho de mercado – o chamado infotainment destinado à classe média urbana (branca, preta, amarela, vermelha, cor-de-rosa, tanto faz) – moldando-o de acordo com as necessidades/horários/expectativas desse nicho, ou seja, falar mal dos ricos com humor e de forma interactiva/proactiva durante os tais 30 minutinhos diários enquanto vai defendendo causas sociais da treta que estão na moda, etc.

    conclusão: jon stewar é um empresário de sucesso, obviamente de direita, que para impressionar pacóvios – a tal classe média – passa o tempo todo a falar mal dos ricos tornado-se ele próprio um deles. fosse ele português, estaria a fazer campanha pelo costa, provavelmente a argumentar no eixo do mal os tremendos benefícios para a nação de uma coligação ps-livre, mas, na intimidade da cabine de voto, sozinho com os seus pensamentos d’oiro, claramente meteria a cruzinha no psd, algo que lhe provocaria um ligeiro mas intenso climax orgiástico.

    1. Bolas, nem eu traço um retrato tão negro do Jon Stewart, acho-o sincero no que faz. Mas denoto que para ti colocar a cruz no PSD parece algo que alguém teria de esconder ao ponto de preferir defender Costa. Isso é tudo um disparate, a situação lá não é transponível para cá. Lá seríamos todos democratas, penso eu.

  4. pumbas, mai nada. adorei a posta, achei fresca, nem se trata de concordar ou não, gostei e pronto. agora, qual é o mal das TEDs, eu adoro TEDs… o formato e a proposta, claro que só vejo sobre temas q me interessam e depende muito do comunicador, mas adoro 😐

  5. Tão bem resumidinho. Isso tudo, mesmo. ( Contra o homem, nada, até porque ele representa um produto e tem que ser coerente mas admira-me haver pessoas a apregoarem que têm um “humor inteligente” e tal – se precisam de o dizer, dá pra duvidar – e a aplaudi-lo sem o mínimo de distância ).

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