Karl Ove Knausgard é basicamente um merdas

Há dias reencontrei uma velha amiga (de propósito, ela ligou-me). Não a via há cinco anos mais ou menos. Dostoievskou-me a existência, guardo sempre um lugar especial para essas pessoas. Foi uma paixão muito bonita e uma relação difícil que durou muitos anos (no meu esquema das coisas). Foi com algum receio que a voltei a ver, lembrando-me do mesmo momento há quase uma década quando fiquei especado a vê-la a aproximar-se ao longe.

Como era de esperar, tratámos de beber bastante e depressa, nisso está melhor e mais madura. Agora compreende-me, o meu pessimismo, como pensei desde o início que estávamos condenados, eu bastante cínico (tinha destruído os sonhos a alguém), ela tão nova e ingénua, seria simplesmente deprimente e redutor ficar com o primeiro ou quase primeiro. Ia crescer, mudar muito, enquanto que eu ia parecer-lhe parado no tempo e, claro, aborrecido. Selffulfilling prophecy!

Sem stress. Temi um possível coup de foudre parte dois, até porque tinha fantasiado com aquele reencontro muito tempo nos tempos que se seguiram à separação, às vezes em muito mau estado, depois cada vez menos, até me ser indiferente e ter conhecido outras pessoas. O meu pai morreu mais ou menos na mesma altura, então foi a tempestade perfeita. Mas anos depois, a verdade é que o nosso reencontro foi simplesmente divertido, com alguns traços de melancolia também, próprios dessas coisas. Deram-nos mais whiskys de borla e tudo. Táxi e adeus. Depois seguiu-se um vazio, andei para casa, não tinha a minha filha (não passei o aniversário com ela) e fui ver pornografia vintage.

No romance em tempos tentei escrever sobre ela, amigos, a minha mãe. Toda gente a quem mostrei o manuscrito se ofendeu com o retrato que fiz porque extraí o cómico, a caricatura, às vezes amarga. Reescrevi algumas partes, suavizei, tracei linhas, sempre a matar aquilo. Lembro-me também de outro texto sobre o meu pai que magoou o meu pai. Percebi que não podia escritor por essa via, provavelmente, não podia, ponto, mas sabia que na crueldade e na objectividade da observação das pessoas e dos meus sentimentos face a elas, residia um interesse literário evidente, algo mórbido.

Karl Ove Knausgard tem interesse porque sabemos que é real e que magoou as pessoas à volta dele, os filhos, a mulher, etc. e então é mais interessante. Fosse a mesma coisa, mas ficcionada, e perderia interesse.

Karl Ove Knausgard não inventou a roda, qualquer reflexão do “fim da ficção” por causa do seu sucesso comercial peca por ‘cronocentrada’. Marques de Sade no século XVIII, Luiz Pacheco, Mishima (que até renegou o Confissões de Uma Máscara, assumindo-se louco), Truman Capote, a lista é enorme, não é relevante e eu não sou a pessoa indicada para elencar todo o santo escritor que verteu para páginas confissões sobre o próximo ou sobre ele próprio que entalaram outros à volta dele por isso gostava que críticos deixassem de ejacular precocemente quando se metem a discutir se o romance ficcionado acabou e chegámos à era do reality show. O reality show pode ser relativo, hoje o grau de exibicionismo é este, amanhã pode envolver simplesmente hack a contas de e-mail e no cinema será  feito inteiramente com câmaras escondidas pelo cinseasta a filmar a mulher a depilar-se ou o filho a masturbar-se e chega o cineasta e apresenta “a sua família real” em cannes.

O ponto é que toda gente sabe que pode ser mais interessante se desfizer completamente as reservas. É verdade. Por exemplo, o encontro que descrevi (foi real?) podia ter elementos bem mais interessantes numa luz fria, mas o sentimento é terno por isso o “fim” não justifica o meio.

Oponto é: para quê? Pelo menos Karl Ove Knausgard ganhou dinheiro. Mas o George R. Martin também, ainda mais, sem chatear ninguém.  É assim tão importante ser um bom escritor a esse ponto? Karl tinha assim tanta frustração pcom a carreira literária ao ponto de revelar maus sentimentos para com filhos? Chega para o canone? Se não chega, talvez pudesse ser rico de outra forma.

Não questiono, até porque não li, que possa ser um excelente escritor e acredito mesmo que é. Mas o facto de ser já um sucesso no tempo dele, de boa parte da reflexão literária em seu redor e resumir ao “é implacável com pessoas próximas”, “a mulher processou-o”, ou “muito minucioso” etc, dele reforçar isso em entrevistas e o enquadrar esta honestidade sem reservas como se fosse um avanço literário, é um pouco o mesmo que dizer que o Twilight introduziu o vampiro e desvaloriza a escrita propriamente dita. Enfim, não gosto do gajo e a literatura dele parece-me irrelevante no grande esquema das coisas. Se falo disto é porque à minha maneira pequena contactei com isso com alguma dureza e talvez tenha significado que 3 anos de trabalho num livo redundaram em nada porque ele podia ser bem melhor se eu fosse apenas brutalmente honesto e não pensasse em formas de fazer as coisas mais ternurentas ou engraçadas. E toda gente que teve um blogue sabe bem que às vezes pensamos “conto isto? não conto isto?” Pensamos nas interpretações que pode haver, se alguém se pode chatear etc. etc. e se vale apena por causa de um post. E um livro é um post muito grande, pronto.

O meu pai teve razão em ficar triste e chateado comigo com o texto que fiz a descrevê-lo numa situação, muito objectivamente, parece-me. Agora morreu, por isso já podia escrever mais, mas tem menos interesse literário do que ter nos jornais o meu pai a processar-me ou deserdar-me. Por isso, não sei. Uma foto engraçada, gosto muito do Jim Jefferies.

respect

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9 thoughts on “Karl Ove Knausgard é basicamente um merdas

  1. o teu post (já agora muito bom) lembra-me aquela classe de pessoas que se auto-intitulam de frontais e verdadeiras, com ar de orgulho por tão preciosa qualidade. quando, na realidade, são apenas grosseiras, brutas e com total ausência de empatia.

  2. Por isso é que me espanta/repugna a lata de algumas bloggers conhecidas em fazer posts comentando a intimidade (mesmo que isso envergonhe os respectivos) só para se passarem por malta fixe. Que direito tem elas de vazar a privacidade (dos outros) em publico?
    Cambada…

  3. O que é forte nos livros do Karl Ove parte do facto de aquelas coisas terem acontecido e aquelas pessoas existido (com toda a ficção que necessariamente há ali), mas é mais complexo. Com as devidas distâncias, é um pouco como dizer que o Rembrandt era narcisista porque pintava auto-retratos: pintava auto-retratos porque era o modelo que tinha ali à mão. O que o Karl Ove faz também é um trabalho obsessivo sobre o material que ele tem mais à mão: as pessoas próximas e ele próprio (e ele é sobretudo implacável consigo próprio), e leva-o a um ponto que a questão deixa de ser essa da exposição, é como se desse a volta, não sei se me explico bem.

    1. Não ponho em causa ele ser bom e safar-se, a questão é se a mulher, filhos etc. percebem o “ele safar-se”. Pensei nisto a propósito do Louis CK e das piadas dele sobre o casamento e as mulheres. O “como é que a mulher dele reagirá a isto”. Passado algum tempo: divorciado. Eu como espectador, acho muito bem, mas levanta questões.

  4. Pois, eu não seria capaz do mesmo… O Louis CK, ocorreram-me coisas do género em relação às filhas, como ele dizer que pensa duas coisas com o mesmo peso quando olha para a filha: ama-a mais do que tudo no mundo e arrepende-se de todas as decisões que levaram ao nascimento dela. Mas com o humor é mais fácil, se tiver mesmo graça e for inteligente é impossível levar a mal, e o Louie ganha sempre.

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