terapia

Interessante pedaço científico no Possibilité d’une Ile, quando alguém refere estudos (não sei se são reais ou ficcionados por Houellebecq) que dizem que o cérebro reforça certos circuitos e existe um fenómeno de acumulação de sentimentos por repetição. O exemplo é o de um veterano do vietname que vive traumatizado e que todos os dias abre umas 50 vezes um frasco de terra do vietname exposto num armário, desatando a chorar logo de seguida. O que o veterano está a fazer é perpetuar o sentimento e reforçá-lo, condenando-se a ser infeliz, devia atirar o frasco pela janela, nunca mais ver nada que o fizesse recordar isso.

O “longe da vista, longe do coração” é verdadeiro, assim é o ser humano, um bicho. Como explicar que uma separação ou morte, numa primeira instância possam ser insuportáveis e com o tempo desaparecem, por vezes completamente, só evocados por episódios, por objectos. Um pai que perde o filho pode optar por manter o quarto e ir lá todos os dias lamentar-se ou aproveitar para fazer um escritório ou a salinha do piano e da leitura, regozijar-se por ter mais tempo e mais dinheiro outra vez em vez de ter de esperar até ao fim da universidade etc. O certo é que o pai que tem 8 filhos sofre menos do que o que só tem 1 e esta simples aritmética devia ser suficiente para perceber como isto é mais biológico do que espiritual e que a própria culpa moral pode favorecer mais ou menos dor, um “devia sentir-me triste”, como as viúvas vestidas de negro para o resto da vida.

Penso, mas porque sou empreendedor liberal de direita (ou vice-versa) que as pessoas se agarram a certas dores porque ao menos são uma forma de afecto e ligação. Esquecer é uma libertação. A dor também nos define, de certa forma, eu escolho conscientemente lembrar-me do meu pai sempre que faço ultramaratonas ou passeio no nosso campo ou pesco. É uma melancolia que me define e não precisamos de ser 100% felizes e frios. Mas é uma escolha. Em compensação só lhe visitei a campa uma vez e não gostei, pus-me a chorar. E para nada!

Isto a propósito de terapia, Freud sai muito mal visto, como um imbecil, porque ao repisar os traumas e análises e conversas e episódios, está verdade a reforçar os circuitos do cérebro do paciente quando o melhor era mesmo evitar ao máximo falar nas coisas. O livro também projecta um futuro em que se sabe que as depressões ou traumas são físicas, fisiológicas, dizem respeito a processos químicos, sinapses etc. problemas de hardware, mais do que causas “psicológicas”. Eu próprio já tomei uma vez um Prozac e senti-me francamente relaxado e feliz e foi bem instrutivo sobre a ‘felicidade’, a alma, a fé, Deus, as crises existenciais e esse género de merdas, poderem mudar de prisma com um químico. Para quê dar importância a algo que se cura com moléculas químicas que, tudo aponta, serão cada vez mais cirúrgicas e eficazes? Foi uma experiência muito boa.

Eu não sei se é correcto, mas sempre desconfiei da terapia como coisa eficaz. Muitas pessoas dizem ” a mim fez-me bem” ou ” a mim faz-me bem”, mas seria preciso viverem exactamente o mesmo tempo sem terapia e comparar e isso é impossível, tal como é impossível pagar uma batelada a um imbecil meses, anos a fio e depois dizer “faz-me mal”, nem que seja pelo placebo. Às vezes parece praticamente crónico, um hábito que só põe pão na mesa de um dos lares. Além disso os psicológicos e psiquiatras são praticamente todos mais estúpidos e/ou insensíveis que os pacientes, quando não são, provavelmente precisam de tanta ou mais terapia que os pacientes. O certo é que a aura é importante, se não respeitamos o nosso clínico, a coisa cai por água abaixo. Estou com o Houellebecq.

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27 thoughts on “terapia

  1. Acho os medicamentos importantes, sobretudo em doentes psicóticos onde nem vale a pena questionar, mas no caso de algumas depressões, não me parece que seja o anti-depressivo que vá resolver completamente o problema, embora ajude a pessoa a ultrapassar o momento, a ir trabalhar, a estudar (ou a ir à terapia).

    Eu acho que dizer que terapia é bom para todos seria evangelizar um bocadinho a coisa. Nem todos têm disponibilidade ou vontade de o fazer. Cada um pode e deve procurar respostas onde se identifica mais. A terapia ajuda mas também estraga, sobretudo numa fase intermédia, por isso não vale a pena ir para terapia à procura de soluções rápidas.

    Por ultimo, o Freud não sai mal visto, nem é imbecil. Tinha algumas limitações, sobretudo quando fala do ponto de vista as mulheres, mas quando as pessoas criticam esquecem-se que o homem viveu há 100 anos, numa altura em que falar de sexo (ou libido) ainda era mais escandoloso que agora e claro, as coisas têm evoluído (ele não tinha razão em tudo, mas quem a tem?)

  2. Jesus Senhor, que zonza estou!
    Estas certezas todas, este pragmatismo aplicado à própria pragmática, este “isto é assim porque hoje me apetece e ainda por cima até pode parecer que o justifico”, é coisa comum a todas as pessoas de direita?

    1. As pessoas liberais fazem isso no blogue pessoal delas sem obrigar ninguém a ler. Se fosse de esquerda, estaria a ser subsidiado para te dizer que podes ir blogues menos assertivos para o raio que te parta e tentaria que os manuais escolares tivessem a minha opinião.

  3. A fluoxetina pode remediar o problema químico, mas não faz nada sobre as causas que conduziram ao problema químico. (O mesmo é válido para todos os outros antidepressivos.) Na maior parte das vezes, há eventos que despoletam a depressão ou a mania; na maior parte das vezes, esses acontecimentos são impossíveis de contornar. São inevitáveis, ao longo da vida hão de haver sempre momentos bons e momentos maus. A terapia entra para ajudar encontrar mecanismos capazes de evitar que esses acontecimentos levem a reações despropositadas. Ajuda a perceber o problema; se conheceres o problema, controlá-lo torna-se mais fácil. Treinaste para lidares com ele, e nem sempre o treino passa por evitares encarar certas memórias. Também não passa por te agarrares a elas, é certo. Tens de as esquecer de forma consciente. Uma coisa assim, sei lá…. Não podes estar dependente da medicação, porque um dia ela deixa de fazer efeito. Deixa MESMO. Tomaste um Prozac um dia e ficaste bué feliz? É normal. Tomaste um. Um dia.
    Agora, se a terapia é coisa para se fazer até ao fim da tua vida? HELL NO! Há um momento a partir do qual se torna redundante, inútil. Se toda agente deve fazer terapia pelo menos uma vez na vida? Também não. Não queiram inventar problemas que não existem.

  4. “Às vezes parece praticamente crónico, um hábito que só põe pão na mesa de um dos lares.” Pode até só pôr pao na mesa de um dos lares, mas ambos beneficiam da situação. Ia dissertar mais sobre o assunto, mas uma das coisas que se aprende em terapia, sem medo, culpa, síndroma de poder ou remorso, ou cinismo, já que falamos nisso, é a não bater palmas para urso dançar. tens essa visão defensiva da terapia, não adianta de nada perder aqui horas a tentar demover-te.
    A Sãozinha aqui em cima acrescentou 5 pontos, reduzir terapia ou psicologia a Freud é retrogrado e redutor, como o próprio Freud, deus nos livre. bjos

    1. Quando é que os meus leitores vão perceber que o meu objectivo é estilo, não é realmente opinar sobre terapia e resolver os problemas do mundo. É como acusar o CK Louis de ser simplista sempre que começa uma frase com “as mulheres…”

      1. Ah, está bem, não há nada como nos esclareceres. Ainda não tinha reparado tratar-se de um blogue de moda.

    2. Não faço ideia de quem sejas. A S.White eu sabia que ia comentar. Se soubesses a quantidade de raparigas que conheço que faz, fez ou vai fazer terapia… aliás, tenho um dom qualquer de atrair doidas. É a mina cena. Sina.

      1. Já falámos sobre isso, é género ou distração mesmo, genuína e verdadeira? E não, não me conheces de lado nenhum

  5. Ah e quanto às mulheres e a terapia na tua vida, respondo-te assim: I’m in therapy to learn how to deal with people who should be in therapy…

  6. Sou psicólogo. Foi um post giro. Fiquei curioso para ler o francês, tenho livros dele em casa que me deram mas,por uma razão ou outra, nunca calhou. Vou tratar disso 🙂

      1. “Sou psicólogo. Foi um post giro. Fiquei curioso para ler o francês, tenho livros dele em casa que me deram mas,por uma razão ou outra, nunca calhou. Vou tratar disso”

        eventualmente, a única resposta de jeito ao teu post. quase ternurento.

        gostas de agitar águas. safa-te a boa escrita e a narrativa. até manténs leitores de esquerda que vão psicólogos de direita.

      2. Sim o Rechena, leitor de longa data, desarmou-me. Sou um cavalo de tróia na esquerda. A direita não me liga muito porque a direita em geral está a empreender e não tem tempo para arte e cultura como vocês.

      3. Eu arranjo tempo para ler almoçando sozinho e, ultimamente, optando pelo metro em vez da bicicleta. Tudo somado dá 90 minutos de leitura diária. Não consigo ler em casa, na cama adormeço logo, à 2ª ou 3ª linha e enho internet.

      4. eu fico na palheta à hora de almoço, receio estar a tornar-me bicho do mato e compenso nesse tempo. aproveitamos para falar mal da malta de direita, sobretudo dos meninos de mocassins e sapatos de vela – sou preconceituosa e contraditória: adoro homens betinho-desportivos, a camisinha, a ganga e umas Merell ou Cat.

        também tenho net e, sobretudo, demasiados blogues no blogroll e no feedly.

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