a minha inadequação total à espécie humana

Colega jovem põe todos os dias músicas estilo “rádio cidade” nas colunas do pc o dia inteiro. Todo um escritório de 12 pessoas sujeitadas à tortura, só eu pareço ficar incomodado com a questão de ser possível, em 2015, comprar headphones e não expor os outros 8 horas por dia a um ruído que oscila entre o aspirador e as obras num piso de baixo. Até durante a hora de almoço ele deixa aquilo ligado. Ele é simpático.

Eu pareço uma besta se disser “desculpa, podes desligar essa merda?” Todos os meus colegas riem-se, pensam que estou a brincar quando encolho os ombros, perplexo, como que a procurar confirmação noutros que aquele hábito é opressivo. Não se importam, parecem completamente indiferentes a isto, tal como não se importam se uma família de portugais de vacanças estender a toalha mesmo ao pé deles numa praia cheia de espaço ou se o bar da praia ou do rio decidir passar música house estridente (aconteceu-me, no meio de uma paisagem bucólica e de outro modo pacífica do Douro, estavam 6 pessoas numa esplanada e todas pareciam indiferentes ao DJ que aparentemente sentia que um por do sol no Douro precisava do som de uma rave no industry de londres).

Evidentemente, o problema é meu. Já passei por isto em praticamente todos os sítios onde trabalhei. Em 2003 por exemplo, ainda se ouvia rádio no local de trabalho e também passei por pessoa arrogante por sugerir que se deitasse um copo de água para dentro do circuito aproveitando a ausência do colega no WC ou cortasse um fio qualquer com um xis-acto.

E tudo começa naquela coisa da ausência total de sentido crítico, o não pensar que há “boa música” e “má música”, “bons livros” e “maus livros”. Pessoas que não morrem de vergonha por não conseguir ler Dostoiévski e gostarem de José Rodrigues dos Santos. São conversas em que nos vemos encurralados, sós, submersos na mediocridade e ignorância total, já não digo na noção básica de respeito pelo próximo e depois interrogam-se como é possível meter seis milhões de judeus em fornos. Claro que é possível, desde que alguém tenha a merda de um rádio ligado o dia todo ou por turnos.

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21 thoughts on “a minha inadequação total à espécie humana

  1. Acho que o respeito pelo espaço de cada um não tem a ver com o que cada um anda a ler. Pelo contrário, cada um lê o que quer como quer. Já numa sala cheia de gente obrigar todos os outros a gramar ouvir o que estou a ouvir, seja o que for que esteja a ouvir, até pode ser Tchaikovsky, se não me apetece, não tenho que o gramar. Ponham fones, não custa assim tanto.

    1. Não sei, eu fico deprimido quando vejo alguém ler Pedro Chagas Freitas na mesma carruagem que eu e sou obrigado a levantar-me e mudar. Felizmente aquele tipo de leitora cobre frequentemente os livros que lê com uma espécie de capinha protectora com flores, gatos, etc. e podemos imaginar sempre que embrulhado naquele padrão fofinho está o Almas Mortas do Gogol.

      1. Bem com tanta insensibilidade acho melhor nem ires de transportes. Normalmente estão lá pessoas, é chato. Eu não tenho visto ninguém a ler esse tipo de livros, mas pronto, é verdade, muitos estão tapados (também podes ser tu que atrais as gajas que lêem Pedro Chagas Freitas).

  2. Tudo se resolve com guerrilha sónica. O jovem não fará por mal e até se considerará generoso por estar a partilhar com todos o que ele acha altamente. Talvez haja por aí um rip do álbum que foi editado com gravações de discursos do Sá Carneiro: pões isso no máximo; trazes umas colunas potentes, e talvez ele perceba.

  3. Em São Paulo há avisos nos autocarros municipais a dizer que segundo a lei tal, é proibido ouvir musica alta, use fone de ouvido, não incomode os outros passageiros, ou assim. agora dá até multa. Dá-te por feliz por ser a radio cidade, podia ser funk carioca, que é a coisa mais nojenta que já ouvi, para alem de obras no andar de baixo e aspirador, as letras são de vomitar. consegue ser pior do que sertanejo, e olha que é difícil, aquele lamento de musica de corno do sertanejo deixa-me extremamente nervosa. Arranja um advogado que te arranje uma lei em que seja proibido música no ambiente de trabalho e espera com ela no monitor do desgraçado, avisando que o escritório não é uma feira. Boa sorte (o mais provável é que toda a gente odeie a música e toda a gente esteja à espera que alguém fale, mas quem falar será o mensageiro que morre depois de dar a má notícia, estás preparado?

  4. No próximo Natal oferece-lhe uns headphones. Ou então dá-lhe já e diz que te esqueceste de lhos dar no Natal passado. Talvez perceba a “dica “.

  5. Ei, os headphones NÃO são a solução. Há jovens (pffffffffffft!!!) que confiam cegamente nos poderes de isolamento dos seus headphones, mesmo que estes não existam; acham que podem aumentar o volume indiscriminadamente e que ninguém vai ouvir; e nestes casos, alertá-los para o incómodo, e para a triste figura que estão a fazer, é muito mais complicado.
    Não vale a pena ser-se passivo: é passar logo para a agressão. Eu também voto na guerrilha sónica.

  6. a que horas publicaste isto? te juro que nao tinha visto até agora. publiquei um post praticamente igual a meio da tarde de hoje. no meu escritório acontece exactamente o mesmo. e também é na radio cidade!

  7. juro que não foi copiado. damn, devia ter publicado o meu mais cedo, já estava em draft desde que ontem me apetecia partir o maldito rádio – mas no meu escritório não é no pc, é um rádio portátil e apanha também um bocado de interferência, para ser ainda mais incomodativo.

  8. não fiz respoder. devia ter feito, para ter ficado uma cadeia de comentários.

    num assunto completamente diferente, gostava que escrevesses um post sobre os refugiados e a solução que encontrarias para esta questão. normalmente tens boas ideias e tenho curiosidade em saber o que pensas disto.

  9. Não compreendo pessoas que ouvem rádio. Pensava que não gostavas do Fiodor. A minha mulher leu um livro do Jose Rodrigues do Santos até ao fim. Acho que ficou traumatizada, proibiu o telejornal à hora de jantar. Futebol sim, telejornal não. E ela não gosta de futebol. Eu gosto do Fiodor. Não gosto do Nabokov.

      1. Confusão minha, acho que houve uma vez em que li qq coisa em que elogiavas o Nabo e comparavas ao Fi, my bad.

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