25 anos

Uma coisa surge, um carro como o renault 5, uma música como o Self Control da Laura Branighan, um filme como o Top Gun. Essa coisa ou tem sucesso comercial ou desaparece do mapa. Nessa fase divide pessoas, uns acham muito mau, a maioria gosta como é evidente, ou não seria um sucesso. Depois surge outra coisa um pouco mais moderna e pronto. O objecto é esquecido por quase todos. Passa tempo. Muito mais tempo. Ainda mais tempo. Com muito tempo e várias flutuações e regressos cíclicos a estéticas do passado misturadas com novas estéticas, os objectos que ainda ecoam na memória colectiva ganham uma nova dimensão: a dimensão afectiva. Acho até que isso sucede ao fim de mais ou menos 25 anos. A pessoa tem de ser exposta às coisas ainda na adolescência, eventualmente infância e juventude (early 20s) e depois tem de passar tempo suficiente para ter a tal afectividade, mas sem ficar senil.

Há dias vi na rua um Ford Escort de 1990, modelo igual ao meu primeiro carro e achei que tinha imenso estilo agora, 25 anos depois, e que daqui por 10 ainda vai ter mais.
escort

Por exemplo, o Renault 5 modelo uns 5 anos anterior ao meu Escort já tem, a meu ver, esse cunho de clássico de carro que uma pessoa só tem porque é coleccionadora ou fã.

renault

Ao contrário dos clássicos dos anos 60, o Renault 5 é evidentemente um carro feio que já não parece feio.

Depois do Ford tive um Golf 4 cinzento. Mais comum era impossível, mas na altura (e ainda hoje) acho que tem um design estrondosamente bem sucedido.

golf4

Contudo, é nítido para mim, que não passou tempo suficiente. É demasiado moderno. Quem anda com ele transmite “ando com ele porque não se avariou e chega-me” que é o caso da minha mãe que ficou com ele.

Por outro lado, quem tem um Golf GTI de 1976 transmite algo completamente diferente, mesmo quando é conduzido por um idoso.

gti

E vocês? Têm objectos deste género? Patinhos feios no baú que na altura não gostavam muito e agora são clássicos?

Esta reflexão surgiu-me a ouvir isto (tenho de ouvir coisas potentes para bloquear o som do colega), é de longe o melhor party mix de música de dança dos anos 90 que já ouvi, melhor do que Girl Talk. Simplesmente épico.

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18 thoughts on “25 anos

      1. Eu não. Com 14 anos, em 1990, bastava-me uns trocos para jogar snooker e um mealheiro para esperar avidamente a saída do Rain Tree Crow, em 1991.

  1. O Golf da tua Mãe continua a ser lindo, apesar do Golf mais bonito ser aquele dos faróis redondos, e não é o dos anos 70, é o a seguir.

    A minha Avó tinha um Ford Capri que conduzia com luvas de condução calçadas e a fumar. Era um carro que não me importava nada de conduzir só assim naquela.

    Espreitei o video e tive um momento Skrillex. Isso é demasiado sofrimento, pá. Ouve essa música com umas colunas potentes apontadas ao teu colega. Ou, então, recomendo este video que oiço por vezes e que, surpreendemente, me faz trabalhar imensamente bem.

    1. Não acho, mas concordo com o status que apesar de tudo dava. O golf foi anos a fio um dos carros mais vendidos em portugal e um dos mais vendidos do mundo inteiro. Claro que depende da faixa etária. Eu já comprei o meu em 2ª mão e com 2 anos, preferi isso a ter um seat ou um renault novo. O carro que conduzo hoje em dia (bmw série 3 carrinha preto) sim, já me coloca num estereótipo incontornável, ainda para mais com a cadeira de criança no banco de trás.

  2. tive um carocha azul bebé, prái de 1965, e um sunny castanho metalizado de 1985. agora é só carros de empresa. um alívio para os bolsos.

  3. Há 25 anos tinha um Swatch e era um tempo em que ainda se usavam os Casio com calculadora.

    (isso das carrinhas BMW define toda uma maneira de saber estar na vida, maturidade, boa dentição, sentido de humor arrasador, capacidade de liderança, pujança sexual)

    (falo da série 5, obviamente…)

    1. Pois eu sei 😦 dois dos meus vizinhos têm 😦 e eu quando me deram o série 3 pensei “ena, vou fazer sucesso”. Mas depois eles arranjaram os dois série 5 novos e não tem nada a ver, o sentido de humor deles é claramente superior 😦

  4. Eu tive um golf desses mas em versão carrinha e na cor preto metalizado que dava um jeitão a muitos níveis, menos na cavidade onde esvoaçava a válvula de borboleta, que vinha com defeito de origem e se enchia de enxofre nas paredes (o enxofre era fornecido pela gasolina) e fazia o carro desligar-se nos semáforos todos a menos que eu mantivesse o pé direito no travão e no acelerador ao mesmo tempo para não fazer troar imensas buzinas atrás de mim. Odiei, mas tive de o vender.

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