os únicos argumentos válidos contra o liberalismo: #23 o dilema da sardinha

Fui eu próprio que os descobri sozinho e tudo. É uma variação do dilema do cinto de segurança. Num mundo liberal, as pessoas usam o cinto de segurança se quiserem ou não (tal como fumam ou bebem ou comem fritos). Não existe uma razão lógica para obrigar a usar cinto e não proibir o tabaco ou obrigar o cidadão a perder peso.

O liberalismo parte da premissa utópica que as pessoas tomam a decisão mais correcta para elas, ou, pelo menos, que é preferível tomarem a decisão que querem tomar em vez de oprimi-las e que a única forma de mudar comportamentos é pela persuasão.

Ou seja, se as pessoas forem instruídas e informadas, podem tomar decisões mais racionais. Eu não preciso de ser “obrigado” a usar cinto de segurança e a usar cadeirinha de segurança para a minha filha e creio que parte da minha geração também usaria cinto de segurança na mesma, fosse ou não obrigada a fazê-lo. Sobram os estúpidos e penso que a sua morte em acidentes de outro modo ineficazes, teria o efeito positivo de diminuir a quantidade de eleitores do PS em 2015 (ah ah ah estou a brincar) (mais ou menos).

No caso da sardinha o dilema coloca-se de forma mais séria. Existem organismos (por vezes supra-nacionais) que monitorizam a quantidade de sardinha selvagem e quanto é pescada. Podemos assumir que são biólogos e outros especialistas que monitorizam e desenvolvem modelos de sustentabilidade da actividade da pesca da sardinha e determinam quanto pode ser pescada em cada ano.

E de cada vez que há uma recomendação de redução ou proibição, os pescadores protestam e exigem dinheiro ou mais pesca, os governos (o actual não foi excepção) dizem que vão enfrentar Bruxelas e procurar quotas maiores ou questionam a validade científica dos estudos, etc.

Portanto há sempre aqui duas forças em conflito: os pescadores que pescam sardinha (ou outro peixe) e um organismo central que, com base em estudos científicos, tenta assegurar a sustentabilidade a longo prazo da própria actividade da pesca da sardinha.

No mundo liberal, evidentemente, a sardinha seria extinta em pouco tempo e daí resultaria um mal objectivo e irreversível, não só para a pesca da sardinha (e para a sardinha enquanto espécie), mas para ecossistemas inteiros dos quais a sardinha faz parte. Note-se que este dilema é bem diferente do caso das quotas do leite. No caso do fim das quotas do leite que mantinham o seu preço artificialmente alto, é boa notícia a falência de produtores de leite e a redução dessa actividade que tanto dano inflige ao meio ambiente, até existir um número de produtores de leite adequado à procura (não se percebe a insistência de Bruxelas em sustentar este sector).

Ao contrário do dilema do eleitor do PS que não usaria cinto de sugerança se não fosse obrigado, no caso da sardinha não podemos assumir que todos os pescadores são estúpidos e que não percebem os fundamentos básicos que regem a sua actividade (pesca) e a da sardinha (nascer, repreoduzir-se ou ser pescada, morrer).

Não poderiam os próprios pescadores espontaneamente entender-se entre eles e gerirem a sustentabilidade do seu próprio modo de vida? Faço notar que isto existem em reservas de caça associativa (o meu pai fazia parte de uma). Os moradores de uma região agrupam-se, estabelecem regras, quotas, as quotas financiam um guarda ou vários que zelam pelas regras (limites para a caça, não passear com cães à solta em certas épocas, etc.) monitorizam doenças, população de algumas espécies etc. Em compensação “forasteiros” não podem lá caçar (penso eu), ficam afectos ao regime de caça livre.

O problema da pesca é que o mar não é propriedade privada de ninguém. Se na agricultura existe um investimento concreto em propriedade privada e na actividade, no caso da pesca o único investimento é em meios de tirar o peixe de dentro de água (tirando a aquacultura, evidentemente). Ou seja, o peixe que está no mar não é de ninguém até ser retirado do mesmo por intermédio de uma rede.

O que sucede no dilema do pescador e da sardinha é que o equilíbrio dominante (teoria dos jogos) é sub-óptimo. O ideal seria essa cooperação (como no dilema do prisioneiro ou da corrida ao armamento nuclear). Contudo,  se 85% dos pescadores se organizasse para não pescar, 15% dos pescadores (vamos supor) retirariam um lucro fantástico de serem os únicos a pescar e a vender sardinha a preços exorbitantes e ainda por cima dentro da lei. Isto no imediato, pois rapidamente investiriam em mais barcos de pesca até atingirem a capacidade que outrora fora de 100% dos pescadores. Ou seja, os 85% de pescadores “racionais” seriam postos fora da actividade para sempre, no imediato – tal como no dilema do prisioneiro o único que traíria os companheiros seria posto em liberdade e no dilema do armamento nuclear o único país a investir no mesmo dominaria os outros.

Ou seja, o racional para os pescadores é sempre pescar o máximo possível e esgotar os recursos de sardinha e só depois disso dedicar-se ao tráfico de droga, refugiados, tours de golfinhos ou votar no PS em 2015.

E este é um dos poucos problemas (outro é o do salário mínimo) que me parecem de difícil resolução no liberalismo – se assumirmos que a extinção da sardinha é uma coisa má. Uma possível solução é considerar que esgotar recursos é uma opressão sobre o outro (algo intolerável no liberalismo). Isto é, alguém que contribua para a extinção da sardinha está a afectar outros, nem que seja a invalidade a possibilidade de comermos sardinha em 2020 ou de outros pescarem sardinha daqui a 3 ou 4 anos. Mas não é uma solução totalmente satisfatória e cabal como em qualquer outro caso (ex taxis e a uber etc.)

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18 thoughts on “os únicos argumentos válidos contra o liberalismo: #23 o dilema da sardinha

  1. A não observância da obrigatoriedade do uso de cinto de segurança (como restantes regras de código e condução) não põe em causa a segurança de outros que não apenas os “segurados”? Por exemplo, no caso das crianças, seres não responsáveis, se os pais não forem obrigados a usar o cinto, é a segurança destas que fica comprometida. Por isso tu podes beber e fumar a partir da maioridade, actos que, em sendo prejudiciais, apenas te prejudicam a ti (lá está, daí as regras quanto aos “fumos passivos”, etc)

    1. Penso que essa visão é rebuscada, a não ser que haja estatísticas que demonstrem que um eleitor do PS em caso de colisão sem cinto voe para-brisas fora e atinja o outro condutor liberal de direita que está sossegado com o cinto, perfeitamente descontraído apesar da colisão frontal. É diferente o caso do álcool ou excesso de velocidade em que aí envolve terceiros.

  2. A obrigatoriedade de utilização de capacete quando se anda de mota é melhor exemplo do que o cinto de segurança, há efectivamente pessoas que voam dos carros e causam danos a terceiros, quanto a partir a carola, só o próprio é que sofre. Quanto à sardinha, é um recurso natural finito como o minério, o carvão ou o petróleo, apenas acaba mais depressa se for sobreexplorado, tens de te convencer disso, não podes estar aí de lagrimita ao olho todo sensível com as pobrezinhas das sardinhas só porque gostas de as comer, tens de ser forte, se as pessoas comessem baratas em vez de sardinha era muito mais lógico, são nutritivas e existem em muito maior quantidade, são virtualmente inextinguíveis. Não podes dividir o mar em concessões por causa da dimensão e da mobilidade da sardinha, como podes fazer com os poços de petróleo ou as minas, né? Para além disso, a minha avó tem muitas teorias sobre as diferenças entre a sardinha de Marrocos, de Peniche, de Sesimbra ou de Matosinhos, o que pode sugerir uma valorização do produto de acordo com o ponto de onde os barcos partem para a pesca e não necessariamente do ponto efectivo de pesca, o que pode distorcer bastante o mercado e chatear a minha avó e tu não queres ver a minha avó chateada. Olha, come sardas.

  3. o dilema da sardinha está sempre a acontecer.
    https://en.wikipedia.org/wiki/Moa#Extinction
    tem a ver com a fomeca que a malta sente e com a necessidade de comer coisas que: 1) não nos queiram comer a nós quando chegarmos perto delas para as apanhar; 2) que se movam lentamente e pesadamente e por isso sejam fáceis de apanhar.

    deixar extinguir as moas/sardinhas porque os caçadores/pescadores devem ter total liberdade de caçar/pescar não é liberalismo.

    no tempo dos maoris era ignorância, ou seja, desconhecimento técnico/ambiental; no nosso tempo é niilismo, isto é, consumir por consumir.

    podíamos falar do abate de árvores, por exemplo, é a mesma merda.

    resumindo: o “liberalismo” (seja lá o que isso for) é manifestamente incompetente para lidar com problemas superiores (talvez por ter sido inventado/praticado/difundido por gajos como o bruno maçães??? fica a questão) dos quais depende a sobrevivência de uma dada população num contexto geográfico específico (no limite, a população do planeta é só uma, isolada num pequeno e limitado mundo).

    como é evidente, vou votar costa da mesma maneira que votei sócrates em 2005 (em 2009 e 2011 abstive-me): porque o psd pura e simplesmente não merece governar, não tem condições para governar uma junta de freguesia quanto mais um país por manifesta falta de capacidade intelectual para lidar com merdas simples como a vontade de comer uma merda de uma sardinha.

    obviamente que o voto em costa deve ser acompanhado pela consequente preparação psicológica que necessitamos para aguentar mais uma inevitável bancarrota e apropriação dos organismos públicos por parte dos socratistas ainda existentes.

    a solução é por isso óbvia: proteger as sardinhas e desmantelar o psd; comer inteligentemente sardinha e esperar pela criação de um grande partido de direita democrática em portugal à imagem do partido democrático norte-americano.

  4. Já leste “O banqueiro anarquista”?
    Só um comentário ao texto, não vejo como a associação de caça do teu pai era diferente de uma associação de cidadãos de um país – sítio – ou de uma união de países. A diferença é que no liberalismo a tua liberdade pode vir a ser regulada por um privado. Russo.

    1. mas há-de ser um russo muito livre, por isso está tudo bem. aliás, no liberalismo tu tens o direito de escolher a quem entregas a tua liberdade. ora bolas!

    2. Já li sim. Aliás, o Fernando Pessoa ou o Eça de Queiroz têm exactamente o mesmo pensamento político que eu, são liberais. É uma boa crítica a que fazes, por isso mesmo eu digo que talvez os países não façam sentido, mas sim regiões em que haja um mínimo de coerência (está-se a ver, em espanha, por exemplo). Acho as nacionalidades abstracções hediondas. Sou muito john lennon.

      1. O banqueiro anarquista é uma crítica ao discurso de que se alguns indivíduos melhorarem, se os actores económicos melhorarem não se submetendo às leis “ficcionadas”, toda a sociedade melhora, é uma crítica ao sistema liberal, penso que isto não é muito controverso. O Eça era liberal num país monárquico e conservador, todos os seus livros relatam histórias das classes sociais abastadas, critica sobretudo os costumes, a religião, e só por isso era-se liberal, é preciso colocá-lo na sua era. O Fernando Pessoa não era bem liberal ou pelo menos não tenho tanta certeza disso, mas viveu na monarquia, naqueles regimes todos que duravam pouco até se assassinarem membros do governo, viveu na ditadura militar, e no estado novo. Viveu ainda num período de ideais anarquistas, é natural que tivesse, mesmo que apenas a dado momento, ideais libertários, não propriamente liberais como os conhecemos hoje. É necessário fazer uma grande viagem até à globalização e a esta teórica abolição de fronteiras para tentar recolocá-los e entender se os seus ideais do século XIX se aplicariam a esta situação.

        É que a globalização tornou óbvio que o mundo é finito, os recursos são escassos para a população actual, e a anarquia liberal, que é para onde caminha o liberalismo clássico, é canibalismo. Sabes que o liberalismo tende para não haver regras nenhumas, para nem sequer haver países, como tu próprio dizes, não sabes? A inércia da desregulamentação é muito grande, só pára numa parede, que é o regresso ao paleolítico da lei. Um país apesar de tudo tem uma identidade definida, a língua, no nosso caso, a história, fabricada ou não, o Cristiano Ronaldo, o folclore de várias estirpes, e uma região apesar de tudo minúscula e coesa, dentro de alguma diversidade útil. Um estado apoia-se na unidade necessária para criar solidariedade inter-regional, ou terás um êxodo rural como nunca viste, de regiões onde não cresce batata, onde não há água, onde não há petróleo, com consequências imprevisíveis para a própria espécie humana. Um estado não pode servir apenas para atiçar a polícia de choque quando os pobres querem comer, ou ter um salário acima de zero. Ouve, eu não digo que o socialismo funcione como tem sido implementado, não estou a advogar um vs o outro neste momento, apesar de ser muito mais partidário do estado social, solidário, sempre achei que este tinha que ser um debate técnico, com contas certas. Acho é que temos que nos posicionar consoante a realidade que temos actualmente, de país pobre, abrir agora o país aos tubarões é uma política de salve-se quem puder, entrem à vontade, comam ali os subnutridos que nem conseguem correr, e já agora os velhos.

      2. Epá… tanta coisa errada.a. Teria de ir um por um… « inércia da desregulamentação é muito grande, só pára numa parede, que é o regresso ao paleolítico da lei. » Ai é? Não sabia. Sempre achei que os regimes que tinham mais regulação e leis para actividade humana eram mais atrasados. Entre todos os disparates salientei só esse, mas se para ti um Reino Unido com desregulação de media e imprensa é mais “paleólitico” ou se vive pior do que em países em que a actividade é mais reguladinha como na Corea do Norte, na Arábia Saudita ou na Rússia? Por favor. Pareces o programa do Syriza com o “necessidade de equilibrar o poder de medias privados com os públicos” e isso acabar em 9 jonalistas processados por terem defendido o Sim no referendo. Existe em toda a história uma clarissima correlação entre nível de menor intervenção do estado na regulação e liberdade / democracia e prosperidade.

      3. Eu estava aqui caladinho mas… fosga-se!… “Aliás, o Fernando Pessoa ou o Eça de Queiroz têm exactamente o mesmo pensamento político que eu, são liberais.” é uma grande atoarda. Deixemos o Eça de parte, que nele não se toca nem com uma flor, como escrevia alguém. Mas quereres dizer que o Pessoa tinha UM ÚNICO pensamento político e apodá-lo de liberal é um bocado desonesto. Pronto. Agora calo-me outra vez, que os meus patrões pouco liberais (vós) exigem-me trabalho.

  5. O pessoa não sei, (acho que simpatizava com o fascismo… mas acima de tudo parecia praticar um tipo muito particular de anarquia não comparável com qualquer ideologia actual), mas o eça era acima de tudo um grande palerma. fosse vivo hoje e era um blogger de sucesso.

  6. “Existe em toda a história uma clarissima correlação entre nível de menor intervenção do estado na regulação e liberdade / democracia e prosperidade.”

    foda-se… quando tu pensas que vens a um blogue normal e acabar por ler uma merda que podia ter sido escrita no blasfémias ou no insurgente, que medo, pá!

    “Sempre achei que os regimes que tinham mais regulação e leis para actividade humana eram mais atrasados” – dou-te dois posts para corrigires esta declaração e pedires desculpa à lógica, à história, à ciência em geral, à religião em particular, à estética, e a todos os escritores que aprecias. lê com calma esta frase em frene ao espelho as vezes que conseguires. pede desculpa a ti próprio também.

    de resto…

    olha, que se lixe. já vi que percebes pouco de liberalismo e ainda bem. Assim, não corres o risco de te juntares a grupos políticos ou blogues colectivos e lutar por aquilo que acreditas. és misantropo. perfeito. limitas-te a ver as coisas de fora e a mudar de opinião anonimamente a calmamente.

    Parabéns.

  7. Entendeste mal a minha frase, mas não é importante. Lourenço, esse discurso é um dogma liberal, uma ideia pré-concebida que só se combate com números que eu não tenho, e não com percepções genéricas de países distantes, um país liberal não é necessariamente um país com bons índices de desenvolvimento humano ou qualidade de vida. Enfim, não tenciono mudar a filosofia de ninguém através de uma caixa de comentários. Já sabemos com estas conversas acabam. À porrada.

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