os contos e brincadeiras e 2015, a gata borralheira

Gostei muitos destevideo em que uma criança se recusa a bater com um pau num boneco tamanho real, numa daquelas brincadeiras idiotas que não se percebe bem a origem.

Eu até com o “atirei o pau ao gato” tenho problemas. E agora a ler contos e histórias infantis acho algumas datadas. Ainda hoje li a gata borralheira (a minha filha disse a Gata Esborrateira) e o conto passa, entre outras coisas:

Ela é bonita e boa pessoa, as irmãs são feias e más, associando beleza física a qualidade de carácter.

Ela fica triste por não ter roupas e jóias para ir ao baile (!). Tive de explicar à minha filha o conceito de jóias, pulseiras, brincos etc. e ela olhou para mim confusa e espero que fique confusa. E está triste por fazer tarefas como varrer e lavar a loiça, portanto, tarefas domésticas em que as crianças até podem ajudar os pais.

A madrasta é má pessoa, como em todos os contos e na própria língua na expressão “sorte madrasta” ao contrário de uma suposta mãe biológica desparecida (e isto em 2015 em que não sei quantos pais são separados).

Ela chora muito e o chorar muito chama uma fada que lhe resolve os problemas por magia com a restrição de “até à meia noite tens de voltar”.

O príncipe vê-a no baile a gosta logo dela porque é a mais bonita. Sentido de humor? Personalidade? Fuck that. As irmãs (feias) têm inveja. Notem que eu sou plenamente crente no amor à primeira vista (e não acredito noutras formas), mas não é pedagógico ensinar isso.

No final (depois da saga do sapatinho de cristal em que o príncipe parece um empregado de loja desportiva a atender-me depois de eu testar 30 pares diferentes de sapatilhas de desporto) fica com o príncipe e acabou-se a vida miserável, o conto termina com mega festa e casamento.

Ora foda-se. Não estou a educar uma criança do PS que acha que vem a Fada e dá o subsídio ou o emprego na área que ela quiser se ela chorar imenso. Ninguém vai ter pena dela, nem sequer eu, para lá de um determinado limite. Nem estou a educar uma betinha dondoca que só quer ser decoradora de interiores e casar com um Bernardo de boas famílias e ser como essas loiraças que andam de Audi TT a maquilhar-se. O próximo conto que lhe vou mostrar na televisão é o da Ripley no Aliens 1 e 2, a Sigourney Weaver com um lança chamas a esturricar aliens.

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16 thoughts on “os contos e brincadeiras e 2015, a gata borralheira

    1. Há dias, o Portas, num jantar de mulheres do PAF, disse que as mulheres deviam cuidar dos filhos e dos idosos, reduzindo, portanto, o papel da mulher a um ser passivo e domestico. Tipo este conto. Se queres outro futuro para a tua filha, cabe-me perguntar-te isto: olha lá, mas tu tens mesmo a certeza que não és de esquerda?

      1. pela milionésima vez… Portas é reaccionário como 95% da direita portuguesa (Ferreira Leite, Bagão Félix, Pacheco Pereira) e foi nistoque desde o pós 25 de abril se distinguiram da esquerda moderada (PS). Agora a diferença é outra e muito mais óbvia e no plano que me interessa, o económico. Mais vergonhoso foi o PSD andar para trás na adopção gay ou introduzir a necessidade de uma consulta qualquer maluca no caso do aborto. Isso sim, é um ponto negativo. Quero é que a minha filha não encarneire e estude e que se informe.

  1. sobre o atirei o pau ao gato. Nunca na minha vida me tinha apercebido, e sempre cantei a letra sem pensar, como as pessoas que rezam o credo na missa.
    mas agora que tenho um filho, das primeiras vezes que lhe cantámos isso, é que parámos logo no primeiro verso, e tivemos de mudar a letra para “não se atira paus aos gatos-tos, porque os gatos-tos, são nossos amigos-os, dona chica-ca não se assustou-ou, porque o gato, porque o gato, não berrou!”
    🙂

  2. Já eu preconizaria fortemente o ensino e a repetição intensiva do ‘Minha machadinha’. Para além de ser um poderosíssimo retrato da relação fetichista e da paranóia possessiva, resulta ainda num apelo catártico à assunção pública dos comportamentos menos convencionais, na gloriosa injunção “salta machadinha, para o meio da rua”. Lamenta-se que a última quadra avente a indisponibilidade da machadinha para ficar no meio rua – e o desejo de “ir à roda escolher o seu par” cheira a recalcamento da sexualidade alternativa e a um desejo de conformidade com as expectativas do meio social envolvente. Chamemos-lhe uma revolta abortada: tudo aquilo que uma criança precisa para compreender a inevitabilidade da injustiça.

  3. As crianças não entendem os desenhos e as histórias de uma forma lógica ou racional, muito menos literal, entendem apenas o simbolismo que representam personagens e acontecimentos e que quer queiras quer não fazem parte do inconsciente coletivo de todos nós. As irmãs invejosas e a madrasta representam a sombra e são arquétipos, que são os personagens do inconsciente coletivo que é o único nível de suposta consciência que uma criança tem até aos dois anos. Só aos dois anos elas começam a ter consciência de que são seres distintos da mãe ou de quem cuida delas, é aos dois anos que a noção de Eu (o ego, que é quem julga certo e errado) começa a formar-se. Se reparares, ela até então diz sempre a Júlia, nunca eu. Não te preocupes com isso, não julgues as histórias, ela só vai interiorizar o que quer que seja que precise de interiorizar no momento concreto, e é só disso que se vai lembrar, que vai querer ouvir vezes sem fim até entender, incorporar, depois deixa pra lá e nunca mais se lembra, porque já apreendeu e vai querer seguir em frente. Dá-lhe amor, que é a única coisa que podes fazer por ela, e orienta-a, que é o papel de um pai. Boa sorte. e desculpa lá qualquer coisinha…

    1. Há histórias e coisas da nossa cultura que existem nela um pouco como a queima do gato ou a tourada, só que de forma menos óbvia. Logicamente que não defendo qualquer legislação ou merdas assim para regular conteúdos, mas há algo herdado por hábito culturar e por preguiça mental. É um ponto que a minha filha adora gatos, quer fazer festinhas a gatos e fala com eles como se fossem pessoas. Prefiro que tenha o arquético de gostar de animais em vez de ter um de “Atirei o pau ao gato” ou outras coisas medievas. Nós influenciamos esses arquétipos, precisamente, e uma criança inuit tem certamente arquétipos diferentes de uma americana e uma etíope. Ela já diz “eu” há uns bons 6 meses ou mais. Percebo o que queres dizer, mas acho que passaste ao lado do meu ponto. Isto tem efeito em todas as idades… para sempre! Podia fazer aqui um rant sobre a influência da Miley Cyrus, do Frozen ou do Twilight. Além disso há muita escolha. Por exemplo, a viagem de Nils Holgersson é sobre um menino que é mau para animais e acaba por se ver reduzido a uma dimensão micro e tem de depender deles para viver aventuras e sobreviver. Já aqui tinha referido também como os livros infantis insuspeitos cristalizam o papel da mãe como a “cuidadora” e o “pai” como “providenciador” quando de facto as mães cuidam e trbaalham e os pais cuidam e trabalham (alguns pelo menos). São só alguns dos exemplos e penso que desde muito, mas mesmo muito cedo algmas coisas se definem.

  4. Como sou de uma ingenuidade assim para o grandinho, sempre cantei atirei o pão ao gato e o gato não comeu… descobri com 32 ou 33 anos que a letra não era assim, quando tive filhos… Portanto o que nos ensinam/lêem ou cantam nem sempre é a mensagem que fica. O importante é ler os contos da suposta vida perfeita aos miudos ( principes e princesas e donzelas, porque o que conta não é o que dizemos mas o que desperta na imaginação deles) e depois educa-los, porque ouvir uma história é entretenimento, mas saber ouvir, interpretar ou ler é algo que se ensina. 🙂

    1. Sara, provavelmente a sua mãe (ou educadora) alterou a música para a versão que hoje em dia muita gente canta e ensina: Atirei o Pão ao Gato mas o gato não comeu…
      A sua mãe é muito à frente. Parabéns!!!

  5. Agradeço a simpatia, realmente tenho uma mãe muito à frente. Mas a minha irmã canta a outra versão e ficou estupefacta (tal como eu) de para cada uma de nós ser diferente. Ainda bem que muita gente canta assim, fico satisfeita, e aposto que o Gato também! 🙂

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