bicicletas e subsidiar Macbooks

Fico sempre bastante contente com o fim do calor estúpido do verão. Tudo o que é demais farta. Também não gosto de dias consecutivos a chover. Felizmente é mais raro. Com o fresquinho do outono e após as férias, e agora reduzindo a quantidade de quilómetros a correr em virtude da ultramaratona que se avizinha, regresso à bicicleta diária e redescubro o gozo que me dá pedalar para o trabalho e para casa.

Há dias li não sei onde a seguinte sucessão de informação a propósito da plataforma de apoio à bicicleta em aveiro: «Bicleta é mais rápida, mais económica e mais ecológica que o automóvel. Desbloqueados 90 milhões para plataforma de apoio à bicicleta».

Se é mais rápida e económica no contexto de aveiro, por que motivo são necessários apoios? De novo, um dilema liberal. A Holanda não é o que é por obra e graça do espírito santo e dos mercados e da geografia especialmente plana (embora também), mas já lá vamos.

É um exemplo de como o povo não vê o quadro todo (temos mais que fazer, eu também) e por vezes, quem gere recursos, tem de tomar decisões que numa primeira fase até podem ser pouco populares, mas que acabam por optimizar o bem comum (acabei de ler a mesma questão sobre a partilha de meios de combate aos fogos, um especialista do MIT diz que o ideal era as corporações de bombeiros partilharem os novos meios, para optimizar o investimento pois não faz sentido ter camiões e helicópteros novos parados e em duplicado, mas as corporações não se entendem e querem cada uma o seu camião velho e o jipe a cair aos bocados por “motivos culturais”).

Não sei quais são as medidas de aveiro, mas no meu entender de especialista na matéria, amplo especialista, incluindo formação em investigação operacional e logística, matemática, economia e utilizador de bicicleta em Lisboa diariamente há 15 anos, liberal, de direita, anti-esquerda, pro-euro, pro-nato, pro-UE e democracia, o problema não passaria por apoio à utilização da bicicleta em si com bicicletas gratuitas e comunagem do género, até porque isso cria um apoio assimétrico e prejudica fabricantes de bicicletas e consumidores de bicicletas que não as públicas, gerando uma dependência endémica do sistema, acabando o mesmo por ser tão ou mais dependente de financiamento público e igualmente caro.

O problema resolve-se criando condições para que a bicicleta se torne mais racional ou segura. Só isso. Não é preciso intervir na oferta de bicicletas subsidiando a sua compra ou utilização. Isso é irracional tendo em conta que podem ser baratas, que qualquer português compra uma scooter ou um carro por preços bem mais elevados e que existe concorrência no mercado das bicicletas, havendo desde coisas a 10 euros em 2ª mão até largos milhares de euros. As bicicletas são utilizadas sobretudo por quem tem mais informação nesta primeira fase e não costumam ser os pobres a ter mais informação e choca-me um pouco ver as elites a defender um subsídio a algo que já de si é barato, em detrimento de subsídios a outras coisas talvez mais necessárias como medicamentos ou transportes públicos. As pessoas não usam bicicletas por muitos motivos, mas no fim da linha estará o custo das mesmas.

Onde não há concorrência na oferta é na gestão das vias públicas e nas leis que regem um estado. A holanda já no final do século XIX estava a construir ciclovias e era o país do mundo com mais bicicletas per capita, fruto, evidentemente, da geografia particular que torna este meio bastante racional. Depois da 2ª guerra mundial toda gente comprou carro e a bicicleta reduziu-se muito. E tudo continuaria assim se nos anos 70 não se tivessem combinado duas coisas, por um lado uma crise que hiper inflaccionou o petróleo e por outro um movimento contra as mortes de crianças na estrada.  Isto gerou uma resposta pública que se focou naquilo em que o poder público se pode e deve focar:

1 – Vias e/ou planeamento urbano que dá prioridade ao ciclismo e aos peões – ex: veja-se o desastre que é o novo Cais do Sodré ou o Parque das Nações só para citar dois locais de lisboa recentes que pura e simplesmente ignoraram a bicicleta na definição das vias e pisos. Se se percebe que seja difícil mudar vias como uma almirante reis, é incompreensível que frentes do rio planas e espaçosas e, no caso do cais do sodré, essenciais para a mobilidade e saturadas de automóveis, não incluam a bicicleta no seu planeamento.

2- Leis, código da estrada favorável ao ciclista – ex: na holanda é sempre o seguro do condutor de automóvel que paga os danos em caso de acidente e o seguro dos carros é obrigatório, mas o das bicicletas não, não é obrigatório usar capacete.

3- Informação, formação e divulgação para mudança de hábitos culturais  – ex: na holanda as crianças têm de passar um teste pelos 12 anos para poderem pedalar sozinhas. As pessoas também por cá desconhecem as ciclovias ou estradas que já existem e que as podiam colocar no trabalho ou escola de forma mais fácil do que transportes e carro, simplesmente nem sequer equacionam a hipótese. É um pouco o mesmo que educar para reciclar, usar o cinto de segurança ou não fazer fogos na mata.

é isto, bom dia.

a música

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15 thoughts on “bicicletas e subsidiar Macbooks

  1. porque é que numa sociedade liberal, etc. e tal, o planeamento urbano tem que dar prioridade aos ciclistas ou peões? aliás, porque é que numa sociedade liberal tem de haver planeamento urbano? nos EUA, por exemplo, há cidades em que os passeios para os peões são raros, assim como os transportes públicos. se a malta não quer planeamento urbano, e maioria da malta não quer planeamento urbano, acredita nisto, então não há planeamento urbano para ninguém.

    numa sociedade liberal, com pouca tradição de usos de bicicletas, por que raio as leis devem ser favoráveis ao ciclista? que raio! então não devia ser ao contrário?

    informação? formação? divulgação para mudança de hábitos culturais? culturais? mudança de hábitos? então se o mercado não resolve o assunto, queres que mude quem, a junta de freguesia? o sindicato? a escola?????

    tu és comuna quando o assunto chega às biclas, estou a ver.

    1. penso que te precipitaste, nós pensamos o mesmo. Falei nisto ser mais um dilema para o liberalismo (como utopia levado ao extremo) em que pode levar a condições sub-óptimas como cidades não terem passeios e falei na contradição que coloca a questão das bicicletas. Contudo defendo uma acção na esfera da gestão daquilo que é público: código e leis, e planeamento urbano ou regras para o mesmo e isso continua a ser algo pelo menos um pouco mais liberal que subsidiar a compra das bicicletas ou dar descontos etc. Claro que um planeamento pensado para ciclovias também custa xis ao contrbuinte e é uma forma de subsidiação, contudo, restringe-se à esfera do que são competências estatais. São questões que não consigo resolver facilmente, mas atenção, não sou tão pessimista como tu quanto ao que sucederia ao planeamento urbano… Penso que a generalidade dos habitantes de um bairro até quer áreas verdes, menos poluição etc. Demonstram-no o preço das casas em bairros residenciais que são melhores nesses vários aspectos e o que influencia esse preço (escolas, áreas verdes, transportes públicos, bairro sossegado etc.)

  2. O teu liberalismo utópico é fofo, a sério. Essa cena materialista de que as coisas são só coisas é um bocado ingénua. O automóvel é um símbolo, não é só uma caixinha com motor que faz vrrrum vrrrumm, Portugal, catolicismo, ostentação, trálálá. Até admito que a bicicleta seja mais rápida, mais ecológica, mais económica, mas foda-se cansa pedalar, especialmente com 2 filhos e 3 sacos de compras às costas. O conforto é um bem de consumo que se compra. Quem tem mais dinheiro tem mais capacidade de ser preguiçoso (arranja quem pedale por ele). Portanto, caro Walden, sim tens razão, o caminho é pensar as cidades facilitando o uso da bicicleta, skate, patins, carrinhos de rolamentos, mas, mesmo assim, as pessoas vão continuar a andar de carro, não por serem estúpidas e não perceberem que andar de bicicleta é espectacular mas porque não podes fazer da população tábua rasa e desgrudá-los de comportamentos e modos de vida culturalmente enraizados, a não ser atirando-lhes com dinheiro ou pontapés nos cornos.

    1. Abordei no post a questão cultural. Sou amplamente científico na abordagem. E baseio-me apenas num aparente consenso mais alargado de que as pessoas preferem menos poluição, mais silêncio, gastar menos etc. De resto concordo amplamente com a questão do conforto. E sim, o carro é uma coisa, uma coisa que confere, inclusive, status. Deve dizer-te que a minha bicicleta por exemplo é um Porsche no campeonato das bicicletas dobráveis e gosto disso.

  3. “as pessoas preferem menos poluição, mais silêncio, gastar menos” ahahahaahahahahahahah, tu moras mesmo numa cabana no bosque, não é? Eu gostava de morar numa cabana do bosque mas moro nos subúrbios e vou ao colombo ao fim-de-semana e as pessoas estão se a cagar para a poluição, detestam silêncio, e gastar menos só mesmo nas coisas indispensáveis (casa, água, gás, luz, gasolina, saúde, livros escolares, fraldas) para poderem ter mais dinheiro para gastar MAIS noutras coisas (putas, vinho verde, bimbys, nespressos, férias em punta cana, carros melhores que o do vizinho). Atenção que não é um julgamento de valor, acho muito normal que se queira gastar o dinheiro que tanto custa a ganhar em coisas que proporcionam conforto prazer e satisfação em vez de coisas chatas como buhuhuhuh impostos.

    1. o que nos distingue de fundo é que eu não tenho uma visão demasiado cínica da humanidade, apenas a acho por vezes condenada a equilíbrios sub-óptimos se ninguém com estudos e informação conduzir o rebanho para aqui ou para ali porque o rebanho por vezes (na maior parte das vezes) quer ser poupado a ter de se chatear com estudar coisas e por isso decide mal e por vezes essa decisão acaba por concentrar no estado a fonte de todas as más decisões possíveis como sucede no fascismo, comunismo etc. Também acho que a esmagadora maioria das pessoas concorda com dar parte dos seus recursos para o bem geral do mundo onde se insere. Os impostos só são chatos quando são aplicados em merdas das quais discordamos, tendo em conta que são cobrados de forma coerciva e opressiva e cuja única mediação são eleições em que por vezes não existe uma relação directa. Embora, sejam de louvar os orçamentos participativos por exemplo. Sou optimista. E acredita, em São Paulo, Pequim ou Los Angeles, a poluição é uma preocupação séria dos habitantes. Não me refiro à poluição como algo “abstracto”.

  4. Só porque tenho uma dissertação acerca disso (não das bicicletas), o projecto para o Cais do Sodré, por executar, contempla o troço correspondente da ciclovia ribeirinha, de resto não podes utilizar a rótula do Cais do Sodré para meter uma ciclovia na rua do Alecrim, porque ninguém a subiria, e porque não existe espaço na largura do viaduto, bem como na maior parte do casco histórico de Lisboa.

    Tens toda a razão relativamente à histórica preocupação das cidades holandesas (e centro europeias em geral) pela circulação das bicicletas, mas se ignorarmos a topografia completamente diferente e as razões culturais que o/a sj já referiu e ainda outras referentes ao clima (parece estranho, mas vivemos menos o exterior), tens dois momentos na história que definem essa diferença de preocupação. O primeiro é o terramoto, que destruiu a nossa cidade medieval, de ruas estreitas, sem clareza estrutural, onde seria impossível a circulação automóvel quando este se generalizou. Quando chegaram, os carros (pensa além disso em carruagens, caleches, coupés) cabiam em todo o lado no centro da cidade pombalina sem grandes congestionamentos, e a orientação era fácil, tudo ortogonal, ao contrário de certas cidades europeias em que o carro não chegou a ocupar o núcleo histórico de forma fluída (lembra-te do Bairro Alto, medieval, mesmo quando se podia era idiota levar o carro para lá, e eu morei ali e levava, com muitos anos de vida perdidos parado atrás de uma carrinha da sumol sem ocupantes). Amsterdão tem os canais, é complicadíssimo gerir a circulação automóvel com duplicação de vias na mesma rua estreita, depois se toda a gente tinha que ter uma bicicleta para circular dentro da cidade (não era só um bairro, eram cidades inteiras no início do sec.XX), é normal que houvesse preocupação pela própria circulação entre cidades para commuting, daí as “auto-estradas” de bicicletas. Depois com a cultura da bicicleta completamente enraizada, houve uma destruição quase total de certas cidades durante a guerra, que permitiu repensar e corrigir algum detalhe dessa circulação, mesmo que o carro tenha aparecido em força.

    Estamos décadas atrás da forma de pensar as cidades na Europa, mas certos momentos específicos da história nós não vivemos da mesma forma, e a nossa cultura urbana tornou-se simplesmente diferente. É muito difícil mudar isso cabeça a cabeça, sem incentivos materiais.

    1. No Cais do Sodré por mim bastava não terem implementado o empedrado desastroso, irregular, repleto de árvores plantadas em ziguezague e que daqui por uns anos o estão a levantar todo, e afiado. Bastava isso para já poder circular na estrada no meio dos carros. Nem toda gente anda com bicicletas de btt. O problema do parque das nações é o mesmo, as faixas de empedrado transversais que tornam qualquer passeio de bicicleta desconfortável e isto é um eufemismo. Mas quem diz bicicleta diz cadeira de rodas ou carrinhos de bebé por exemplo. Quanto aos locais apertados como aquela ponte de merda em madeira, pronto, haja bom senso, não espero pontes aéreas com pensam fazer em londres, mas nas zonas em que pensava há amplo espaço e resumia-se a um pavimento diferente. Concordo com o efeito modernizador que tem uma boa guerra e destruição maciça. Não espero que Portugal seja a Holanda e concordo contigo, excepto a parte dos incentivos materiais à compra de bicicletas ou bicicletas partilhadas. Só defendo planeamento a pensar nisso de forma séria e integrada. Por exemplo, não é plausível pavimentarem toda a baixa com um empedrado solto em blocos ou pintarem ciclovias naquela estrada / cratera ao lado da av da liberdade. Tenho a profunda convicção que quem pensa nestas merdas na CML ou quem as executa, não tem qualquer experiência prática de ciclista. Eu até quase de borla serviria como consultor nisso e consultaria outros ciclistas urbanos para validar as propostas e fazer críticas. Só pedia que gastassem melhor o dinheiro. Marcas como a Galp ou a EMEL até financiam coisas pro-bicicleta, não é líquido que tenha de ser dinheiro público. Em vários países há empresas privadas que financiam estas coisas. Li mega estudo há tempo sobre esses planos das bicicletas partilhadas e tem tudo para dar merda neste momento, até porque a cidade ainda não é bike friendly.

      1. Ok, já percebi, estás a chamar Cais do Sodré à Ribeira das Naus, sim, a Ribeira das Naus tem sido um péssimo exemplo para tudo, pelo menos em termos de execução, mas este é o projecto para o Cais do Sodré (sem as árvores), com a ciclovia ribeirinha a ligar com essa péssima da Ribeira: http://2.bp.blogspot.com/-O4-mYg44HpY/UZ05IOwb70I/AAAAAAAAA90/plxbZMofYdg/s1600/Cais+Sodre_Bruno+Soares_04.jpg
        Também se vê ali mais junto à rótula as passagens de peões, que podiam englobar bicicletas, dependendo do espaço disponível. Mas é mesmo muito complicado em termos macro-urbanos implementar seja o que for. Uma ciclovia que é implementada aos bochechos está sempre condenada à crítica, mas implementada de uma só vez é impossível, hoje em dia só se mexe em infraestruturas da cidade de forma integrada, para não sujeitar a zona e o erário público a várias obras consecutivas. Claro que nem sempre funciona bem assim.

        Quanto à Expo tens razão, o plano original era óptimo em termos pedonais por exemplo, mas o poder executivo em Portugal ainda é muito bimbo, há decisões que vêm de cima, sabe-se lá de que merceeiro. A decisão de manter a linha do comboio elevada foi fulcral, em 5km de extensão só tens 5 acessos, o que é péssimo para a circulação que não seja automóvel. A engenharia de tráfego ainda desenha a maioria das cidades em Portugal, o que parecendo que não, é terceiro mundista.

        Aquele viaduto da Galp na segunda circular foi um negócio qualquer, a Galp comprometeu-se com a câmara em troca não sei do quê. No fundo é como se fosse a câmara a pagar.

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