o humor é uma questão de perspectiva e estatutos

Há tempos vi Ricky Gervais, um imbecil no papel activista, mas excelente comediante, dizer uma atoarda sobre não fazer piadas racistas porque não tinham um fundo de verdade e para ele – o homem que grelha estrelas de hollywood com um humor fantástico e corrosivo, incluindo com a suposta homossexualidade de Tom Cruise em directo nos óscares – só se pode gozar com o que tem um fundo de verdade.

A verdade ou falta dela não é, ao contrário do que diz Ricky Gervais, determinado comportamento depender ou não da cor da pele. A verdade é a existência do preconceito e uma forma de gozar com o preconceito é, no contexto de um sketch ou standup, elevá-lo ao absurdo. Nem sequer deve – em minha opinião – procurar propriamente eliminar o preconceito, mas sim mostrar que existe. Só isso é muito importante. Só o pensar “pois é, eu penso isto, eu acho isto, realmente, todas as lésbicas são politizadas e não têm sentido de humor” .

Tom Cruise é Tom Cruise, como Paulo Portas é Paulo Portas e por isso se pode gozar com a homossexualidade de Paulo Portas (não me refiro a pivots de telejornal evidentemente, mas pelo menos é hábito entre as pessoas não ser crucificado sempre que se brinca com a foto de Paulo Portas todo suado a tocar pandeireta). Contudo, para mim perde um pouco a piada quando é uma pessoa de esquerda que o odeia a pegar nesse tema depois de por ele ser enrabado eleitoralmente e/ou um homofóbico. Depende do contexto, da perspectiva.

O estatuto do alvo faz a diferença entre Paulo Portas e Quintanilha,o primeiro é ministro de um governo e já quis bombardear sapatonas on waves, é católico e de direita e não dispensa o look agrobeto na feira da golegã. Tom Cruise anda na cientologia, desfila mulheres atrás de mulheres, anda com tacões e tem um ego gigante. Quintanilha pelos vistos, depende. Eu vejo-o como um cientista de 70 anos, como deputado da república. Não conseguia vê-lo como um adolescente homossexual vítima de bullying verbal de dois adolescentes na minha rua, os mesmo que interpelei e enxotei, aqui há tempos, se alguns se recordam. Mas depois de o ouvir a fazer o papel de vítima, passei a ver mais com um daqueles jogadores de futebol que se atira para o chão sem sequer haver falta.

Também me vejo na liberdade de achar que parte do estatuto mediático que adquiriu e mesmo o seu convite para as listas do PS deriva dele representar um homossexual proeminente que se assumiu de forma pública, ter sido adoptado e imediatamente despertado opiniões favoráveis de uma parte do eleitorado e disso ir ao encontro do posicionamento do PS que precisa de votos contra o PSD que até fez a imbecilidade que fez no diploma da adopção gay. Não classifico isso nem de errado ou certo, só digo o que é. Não quero duvidar para já dos méritos de Quintanilha como político, mas isto de se armar em virgem ofendida (no pun intended) foi um pouco patético e mau sinal. É colar-se ao estereótipo.

Se sofreu certamente discriminação negativa, também se pode sofrer discriminação positiva e até com a melhor das intenções e resultados. E estaria no meu direito e legitimidade gozar com partidos por nestes dias do politicamente correcto terem a tendência de preenchimento de quotas e de, ao fim e ao cabo, fazerem a discriminação. Quotas de mulheres, por exemplo, haverá algo mais degradante para o estatuto da mulher que ter de ter quotas para as incluir como se fossem pessoas com síndrome de down? É discriminação reduzir a pessoa a um estereótipo racial, género ou orientação sexual, se é trangen ou trangénico ou transsexual ou anão, digo eu. O que é preciso é eliminar a discriminação negativa.  Não chega, como é óbvio, ao populismo do Bloco meter a senhora doméstica de 68 anos que ali foi parar para respresentar o cliché da domestica de 68 anos, que até considera uma enorme maçada ter sido eleita porque vai ser uma grande complicação na sua vida conforme declarou, em vez de eleger mais uma deputada ou deputado cheio de força e qualificação para defender milhões de domésticas de 68 anos no campeoanto da AR que não envolve, que eu saiba, concursos de faxina, por mais respeito que tenha por domésticas que até tiveram como neste caso um passado activista.

As pessoas têm preconceitos que parecem passar em claro e se calhar por isso é que existem e subsistem em todos nós. Mas às vezes isto tem proporções algo assustadoras, como os ataques violentos que a extrema esquerda faz a Angela Merkl ou ao “ao ser alemão”, inclusive em cartazes. Nem falamos de humor, chamam-na de gorda, velha, feia e falam no “no governo mais alemão que os alemães”, usam fotos em que ela tem a cara distorcida ou expressões descontextualizadas da mensagem para reforçar a manipulação (ex: video com ela num barquinho sorridente e imagens de imigrantes a afogar-se). O mesmo para Schauble cujoa figura, de cadeira de rodas, é mesmo uma espécie de prova que a maldade advém de um limite físico ou que faz parte do todo. Muitas vezes são as mesmas pessoas pessoas que depois se apresentam como guardiões do tema da misoginia ou da xenofobia ou da superioridade moral e ética da esquerda.

No caso de José Rodrigues dos Santos isso ficou patente. Toda gente que insiste em querer ver ali mais do que a gafe votou num dos muitos partidos derrotados nas eleições passadas ou não gosta dos livros dele ou tem outro problema qualquer com as orelhas dele. Não que todos, obviamente, pensem isso, mas a condição é necessária. É o facto de não gostar dele que torna não só credível como mesmo desejável que ele seja homofóbico.

E eu que nunca gostei de José Rodrigues dos Santos (pelo lado de escritor e pessoa que aparenta ser em entrevistas – um tipo limitado e arrogante, combinação poderosa) , que sempre defendi o fim da RTP, e que sempre gostei do Quintanilha, vi-me a ter empatia pelo desgraçado do José Rodrigues dos Santos e a passar a ver o Quintanilha como um florzito de estufo que se atirou para o chão a vitimizar-se armado em princeso. Assim não.

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10 thoughts on “o humor é uma questão de perspectiva e estatutos

  1. Fiquei toda baralhada, tenho a cabeça fraquinha. Não percebi se posso continuar a insurgir-me contra piadas homofóbicas sobre o Paulo Portas apesar de não ter votado PaF.

    (Esse “vítima de bullying verbal de dois adolescentes na minha rua, os mesmo que interpelei e enxotei, aqui há tempos, se alguns se recordam” parece mesmo um “até tenho amigos que são” disfarçado ihihihihihi)

  2. O título está excelente.
    A questão do equívoco/piada ainda vai durar mais um bocadinho, até o pessoal pseudo-activista/defensordosoprimidos/neomoralista/estouindignadocom(preencher_espaço) arranjar uma nova cruzada.
    Em conversa com amigos, de uma forma geral, chegamos todos à mesma conclusão: qualquer que fosse a justificação do JRS, seria mais uma pá de terra na cabeça, na alegre actividade de se enterrar.
    O que de facto não contava – e pelo texto, não fui o único – era com a reacção do Alexandre Quintanilha. Não contesto minimamente a legitimidade da sua indignação, mas sinceramente pensei que lidaria com isto de outra forma, nomeadamente não vir a praça pública dar uma de ofendido além de, através dos canais que estão à sua disposição, formalizar essa queixa.
    Just saying…

  3. Este texto está excelente e parece uma leitura integral do meu cérebro e da minha opinião sobre isto. Isto é claramente um daqueles casos de bola à mão, não era caso para penalty e para aquela fita toda do Sr. Quintanilha e da opinião pública à volta disto. Entretanto lembrei-me como o exemplo que usei poderia ser engraçado se fosse invertido: isto ser um caso de mão à bola do Sr. Quintanilha. Mas aí já entrava em desacordo com parte do texto por causa das piadas sobre homossexuais e é melhor não 😀
    Mais uma vez, excelente exercício mental e escrita.

  4. O ricky gervais nao diz isso, diz que as piadas que ELE gosta de contar têm de ter um fundo de verdade. Para ele provavelmente o facto do tom cruise ser gay e achar que tem de esconder isso ha 40 anos tem graça, não tanto o facto de ser gay, o south park tambem fez um episodio inteiro sobre ele nao sair do armário.

    Em relação aos argumentos não percebo bem o ponto, sobretudo essa necessidade de criar uma espécie de “super esquerdista mitológico” e debater com essa criatura imaginária. Há pessoas que se indignaram acharam que JRS tinha feito uma piada homofobica, há as pessoas que se recusam a aceitar que tenha sido uma gafe, há pessoas que votaram esquerda, há pessoas que chamam gorda à merkl, e não são todas a mesma coisa. A piada, existindo, era reprovável, fosse com AQ, PP, quem seja (e gozar com o principal politico conservador portugues gostar de usar perucas loiras não é a mesma coisa que gozar com ele ser gay – que era o que a direita gostava de fazer com sócrates, sempre de uma perspectiva de ódio como se viu pela campanha de santana lopes, agora sou eu a generalizar).

    Nao existindo a piada de JRS, claro que é num não assunto, e a reação de AQ uma idiotice. Certo.

    É facil cada um ver o mundo do nosso apartamento confortavel, com o bmw à porta, e a sentir-se muito “subversivos” e contra o politicamnete correto a criticar os que defendem as minorias, que não é sinónimo de ser de esquerda, os seus sovacos nao depilados e as suas quotas (as quotas sao necessárias enquanto forem machistas a fazer as listas, é simples), ou enquanto dizemos “preto” e “paneleiro”. Mas o humor não é só contexto e intenção, também é mensagem e efeitos, mesmo que nao sejam os que lhes queiramos dar.

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