Stone Roses

Stone Roses. Oiço-os desde meados dos 90s. Se continuar esta tendência de os achar sempre melhores do que da última vez que ouvi, é possível que em 2020 sejam melhores que os Beatles.

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buffalo 66, a imagem

Há filmes cujos os “stills” são quase todos merecedores de serem fotos por si só. Neste campo, um dos objectos que acho mais curiosos é o Buffalo 66 porque mistura um relativo caos à Cassavetes no argumento, mas depois tem um rigor formal próximo de Kubrick. Tati, ou Hitchcock com orçamento mínimo.

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Tudo em cada plano é meticuloso. O filme é todo a madeira, branco sujo, verde pastel e vermelho sangue, azuis diluídos. Até num grande plano da Cristina Ricci encontramos os tons dominantes do filme, nos lábios, nas pálpebras.

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A atmosfera gerada acaba por ser o oposto do realismo de Cassavetes em que a envolvente orgânica reflectia o agumento e mais próximo de um universo Lynch, onírico, de subúrbio americano, retro, que acentua um lado ingénuo que o filme tem.

Tal como em Lynch existem sequências em que a iluminação deixa de ser realista e introduz a visão subjectiva de uma personagem ou um mundo de sonho, mergulhando tudo na penumbra menos a personagem.

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O tom pastel e ‘envelhecido’ da imagem, o grão, a aparência low cost e do i yourself dá ao filme uma atmosfera retro dos anos 60. Foi mesmo filmado em 35mm num formato (reversal film stock) que já foi descontinuado há muito e que se caracterizava por ser muito instável e imprevisível.

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O filme é de 1998. Se hoje é comum depois dos filtros do instagram ou dos sucessos do intragável Wes Anderson, na altura esta estética era extremamente fora. E envelheceu bem, talvez por ser genuinamente analógica.

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O filme foi filmado em muito pouco tempo (23 dias) o que ainda faz sobressair mais a obsessão necessária para certos planos. Em geral o mundo é geométrico e regular. Isso cria um contraste com os corpos de Gallo e Ricci, como se ambos fossem desajustados ao mesmo, como dois animais vadios à solta. No still acima o corpo em movimento e na diagonal de Gallo em contraste com as linhas da pista de bowling e os pinos.

A postura corporal de ambos é “implodida” em quase todas as cenas, como se estivessem “apertados”.

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As pernas de Ricci no plano acima, os braços em V de Gallo e Ricci.

Gallo em diagonal na cama rectangular.As roupas deles por outro lado estão amontoadas.

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A banheira (obviamente com azulejos esverdeados), tons pastel, Gallo em posição fetal a atrofiar. Ele é excelente a atrofiar. Não encaixa na banheira. A cena deixa uma sensação desconfortável. Outra pessoa deslizaria e deixava-se ficar submersa.

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Gallo tenta dormir num banco de jardim na neve. Vertical, horizontal. Só o corpo dele é uma coisa que não encaixa em lado nenhum e se torce toda ao frio contra uma superfície dura.

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Mas um dos motivos pelos quais também acho filme lindo é pela Cristina Ricci. Tendo mesmo neste filme bastante peso a mais para os padrões de Hollywood, o cast foi perfeito. A cara redonda e expressiva, as formas voluptuosas, são o contraste perfeito quer para a atmosfera fria e geométrica do mundo do Buffalo 66 e mesmo para o próprio Gallo, anguloso, magro, pontiagudo, a começar pelas botas. Ricci é como uma ursinha de peluche, quente e fofinha. Uma ursinha muito, muito sexy.

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uma nota final para o Tiago: atentai na ocultação de mãos em quase todos os planos em que poderiam perfeitamente ser visíveis 🙂

 

mãos

adoro isto.

A basic rule for hands is to make sure they are never both at the same level in the photograph. The space between the two hands creates an imaginary line. This line will be a diagonal one, which is much more interesting than a horizontal line. In general, you should show the profile of the hand. The palm or back of the hand is actually quite large and will demand too much attention—often drawing the viewer’s eye away from the model’s face or the product she is selling. Also, age tends to be more visible on the backs of the hands. Additionally, when you are working in awarm environment, the veins may protrude in anunappealing fashion. There are some exceptions, of course.(…) Keep the fingers together and in a slightly bent position. Spread fingers create too many lines for the viewer’s eyes to read. And don’t crop or hide those fingers, either. When this happens, the hand looks amputated,leaving the viewer to wonder whether or not the model actually has all her fingers.   – posing techniques, Billy Pegram

a imagem

Se a imagem sempre foi importante desde os tempos em que esfregar sangue de mamute na cara e usar colares de dentes de crocodilo era fashion, com a era das redes sociais, explodiu.

Podia escrever um tratado sobre isso. Uma das coisas cruciais é o hiato que pode existir entre a imagem construída por fotos e a realidade. Toda gente pode parecer muito bonita e nem me refiro a aldrabice de photoshop. Basta uma filtragem de fotos, de  ângulos e crops. Um mulher pode transformar-se radicalmente só com maquilhagem, roupa, penteado.

Como convivi com muitas actrizes habituei-me a ver mulheres em contextos perfeitamente banais como jantares no fim de um ensaio cansativo e depois comparar com trailers de filmes ou novelas ou fotografias de pros. E isso confirmou algo que já tinha em mim, a descoberta de belezas absurdas onde não parece haver nada de especial.  Mulheres que sei que mediante luz assim e assado, maquilhagem coiso e filtros, dariam 10 a zero às consagradas nesse campeonato da beleza (o talento de representar bem, é toda outra coisa). E estão em todo lado. Algumas penso que descarrilam só por não ter noção disso, por ninguém lhes dizer.

A propósito, vi hoje uma mulher Felinini level num restaurante, A Palmeira, onde vou muita vez. Estava num almoço de homens de negócios, de fatos. Ela era a única mulher num grupo de cerca de 5 6 homens e fiquei um pouco perplexo por não detectar em nenhum dos homens um desnorte natural. Um deles era bem parecido e tinha nível para ela, observei-o, mas não detectei nele qualquer inquietude. Estavam a falar uns com os outros e a ver o Rui Santos na Sic Notícias a comentar lances do Benfica Sporting, enquanto que eu lutava para não a olhar demasiado fixamente. Foi apresentada a um deles, na mesa ao lado. Era portanto uma ocasião não rotineira. Ela estendeu a mão e cumprimentou com um passou bem e um sorriso. Não conhecia o restaurante porque perguntou onde era o WC, indicaram-no. Falou com o empregado de forma simpática. Procurou um sítio onde pendurar o casaco e fê-lo num cabide numa parede distante, o que revela um certo deprendimento prático. Não nos daríamos bem nisso. Era absurdamente bonita.

enriquecimento pessoal

book

Mal não faz. Sempre é melhor do que ler mais um sobre técnicas de pesca ou running. Estou genuinamente interessado.

«the photographer who understands the system will find it a very
useful tool when faced with a beginning model who just stands in
front of the camera like a deer caught in the headlights and says,
“What should I do?”»