loucos

Perdi parcialmente, e não sei se para sempre, o meu melhor amigo para o que hoje é diagnosticado como sendo bipolaridade. Não sei o que ele tem. Sei que estamos em planos de realidades diferentes e que estar com ele me faz sentir brutalmente frustrado.

É como se falasse com uma parede, quero sacudi-lo e dar-lhe estalos para que volte a ser o que foi em 1990 e qualquer coisa quando brincávamos com os thundercats e os gi joes em minha casa. Há dias levei-o a pescar. O entusiasmo do pai a querer uma centelha de interesse no filho, a encorajar-nos, partiu-me coração. Ele é como um irmão para mim, a família é a minha, e todos ficam algo exasperados. É um detalhe das doenças mentais, não são cancro ou algo do género, costumam criar confusão e sentimentos ambíguos, porque vemos um corpo saudável e a mente é invisível. Eu sinto tanta frustração.

Não sou exactamente o tipo saudável ou normal a esse nível, mental, por exemplo, penso no suicídio com o mesmo desprendimento como um corte de cabelo diferente e noto que as pessoas aparentemente normais não acham isso e vêem o suicídio como algo chocante quando para mim é apenas algo triste, mas não irracional per si.

uma vez tive uma mulher louca (clinicamente certificada como tal) a dizer-me, contrariando a minha tentativa de empatia com ela com a partilha de pensamentos malucos, olhos nos olhos, e era eu puto, “tu és uma pessoa muito forte e estável”. Senti que isso era redutor ou um insulto, eu queria ser interessante. Ela era definitivamente louca e muito mais interessante do que eu, logo a começar por ter doado tudo o que tinha a um convento. Às vezes acho que o meu papel é mais o de testemunha, até porque tenho um nível de paixão extremo pelas pessoas em geral. Talvez o meu interesse pela fotografia seja reflexo disso. Acho que se estão todos nas tintas para mim. Isto não é ser calimero, apenas sinto que algures criei uma noção errada de que era uma pessoa especial ou algo do género porque não encarei devidamente o contexto todo de uma lápide com o meu nome a ter umas flores de vez em quando pela mão da minha filha.

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6 thoughts on “loucos

  1. Quando percebemos que isto (“encarei devidamente o contexto todo de uma lápide com o meu nome a ter umas flores de vez em quando pela mão da minha filha.”) passa a ser menos paralisante

    do que isto (“Vejo tragédias com crianças e a minha conclusão é que deixaria de ser funcional se a perdesse”),

    é quando começamos a cagar um bocado para aquilo de sermos especiais e interessantes, acho que ficamos mais calmos em relação ao absurdo, preferimos olhar para a nossa filha a crescer, ainda que também absurdamente. (e aqui opto pela omissão do apontamento pessoal e demasiado íntimo, exemplificativo, na minha primeira pessoa)

    Ou então o que acabei de pensar e dizer é só estúpido. Caguei.

  2. Tenho uma relação amor-ódio com a loucura. Um doente mental causa muita mágoa e desespero a quem o rodeia e não poucas vezes, têm o condão de levar ao desespero uma família inteira. Por outro lado, que seria de nós sem os loucos para nos dizer, mostrar e viver em carne e osso aquilo que tapamos com a suposta normalidade civilizada?

  3. Também me acho especial e principalmente diferente, talvez tenha criado isso, talvez seja mesmo diferente, talvez porque mo disseram uma vez, talvez porque me sinta mesmo diferente. Quanto ao suicídio, ’tou contigo, já pensei nisso, não de uma forma concreta, de o cometer, não garanto que não volte a passar-me pela cabeça, e acho que o que me salva é ser muito positiva na grande maioria do tempo. Talvez a fantasia ajude, a possibilidade da magia. Bjo

    1. esqueci-me de dizer que a loucura é das coisas que mais me apavora, por ser tão, tão fácil enlouquecer… Mas não considero a bipolaridade uma loucura… e penso que a psicologia também não. No entanto, há que ter muito cuidado com os diagnósticos. O melhor psicólogo é o que não te encaixa em categoria nenhuma muito menos te põe um rótulo na testa, por melhor que isso te faça sentir, a não ser que tenha a certeza absoluta do que está a dizer. E para isso tem de te ouvir e muito.)

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