a busca

(Já abordei este tema num post, depois apaguei, postei, apaguei… ando  a escrever isto há dias, vou finalizar e postar de rajada, os que já leram, isto é uma versão 2.2!)

Não há praticamente pessoa que eu conheça que não tenha passado por uma “fase fotografia” ou que não queira passar por uma. Pensam em cursos, perguntam quanto custa uma boa máquina. Eu tive pelo menos duas fases de fotografia preliminares, antes desta que está a ser mais séria. A fotografia permite uma expressão imediata e resultados que, com alguma sorte, até podem ser pontualmente espectaculares. O talento ou falta dele não é um impeditivo como sucede na escrita. Isto é, qualquer pessoa pode ser fotógrafo e divertir-se, logo para começar.

Qualquer pessoa pode ser competente desde que estude e aplique métodos e técnica certa e consiga controlar as variáveis. Na escrita ou noutras formas de arte (pintura? canto?) isto não se verifica, há pessoas que pura e simplesmente nunca serão capazes de articular os mínimos. O início pode ser torturante e desencorajar.

Bem, se é divertido fotografar, a capacidade para fotografia envolve muitas coisas que numa primeira abordagem não associei a talento específico de fotografia. Tendia a pensar apenas em composição  ou técnica, não via todo o trabalho invisível.Um excelente fotógrafo tem um conhecimento profundo do assunto (ou tipo de assunto) e prevê o instante, antecipando-o e sobretudo procurando-o. E para ter conhecimento, tem de ter curiosidade, perseverança, enfim, depende do tipo de foto, claro. Sigo um fotógrafo português de vida selvagem e o processo até ter uma foto daquelas national geographic level é incrível. Coloca câmaras armadilhas por todo lado para apanhar o tipo de bichos numa zona selvagem, estuda os hábitos, desenvolve uma estratégia, são semanas e semanas para obter a foto.

Quando começamos nós a fotografar até já temos uma lista de conceitos e imagens que nos são familiares, os sítios onde nos sentimos bem. Tenho a teoria que as fases de fotografia de muita gente (e eu não fui excepção) acabam por se esgotar por esgotarem esses temas habituais e/ou por a sua concretização não ser a desejada.

Em 2001 ou 2002 gastei uma série de rolos a preto e branco a fotografar a zona de Santa Apolónia, nomeadamente barcos, comboios… Como as fotos ficaram  sempre uma merda (hoje sei porquê: céus azuis sem nuvens que ficavam brancos, sobreexposição, hora do dia péssima, zero controlo sobre contrastes na revelação, lentes desadequadas, má composição, ausência de tema etc.) e muito abaixo do que via nos livros do Ansel Adams, não fui muito mais por aí.

Mas a principal razão de ter desistido era eu achar que podia tirar boas fotos quando me desse jeito. Olha, vou fotografar este fim de semana. Saio aqui de casa e vou aqui para a beira rio e coisas fantásticas vão acontecer. Como isso não aconteceu, não quis gastar mais dinheiro a revelar rolos (e ainda bem, diga-se).

Entretanto fui pai e mudei. Recentemente fui enxotado pela polícia pois invadi uma propriedade privada para tirar fotos do Panorâmico de Monsanto .

Teria de experimentar dias diferentes, horas diferentes para cada sala, no fundo passar lá dias, tentativa erro…

Fui lá porque estava em casa e percebi que o dia tinha uma luz estranha, com nevoeiro estagnado por cima do tejo, nuvens invulgares a sul…  Tinha apenas 1 h de luz boa. Tive de ir a correr para o carro e acelerei que nem um doido. Estacionei e fui de bicicleta a abrir até ao local pois é sentido proibido para os carros. Sempre com o equipamento, incluindo tripé, tive de passar por um buraco numa cerca com a bicicleta às costas e levar a bicicleta comigo incluindo de piso para piso, pois havia “mitras” (simpáticos, mas mitras mesmo assim). Tudo isto foi conseguido porque já tinha feito o reconhecimento do local antes.

Bem, o ponto é que isto também é fotografia, a procura. Embora este local seja um cliché fotográfico em Lisboa, a verdade é que a maior parte das pessoas não o conhece devido a todas estas barreiras que referi.

Depois disto ainda fui a correr ao Montes Claros, saí do carro e corri com o equipamento pela mata a ver se tinha uma vista boa da ponte 25 de abril e do cristo rei, não tinha, voltei para o carro  e depois ainda fui à faculdade de Arquitectura correr monte acima até à orla de monsanto para mais tentativas de captar o Cristo Rei por cima das nuvens e não se aproveitou nada porque o ângulo da ponte e do Cristo Rei não era o ideal (acho que o perfeito será algures na Ajuda ou Restelo) Mas tudo isto é reconhecimento. Vamos construindo um catálogo mental de locais, vistas, situações, lentes, horas do dia, luz etc. para tal e tal foto. Se um dia apanhar bem o Cristo Rei por cima das nuvens com a ponte 25 de Abril não será resultado de sorte nesse dia, mas sim de várias tentativas.

Portanto, quando lemos 300 vezes que a “câmara não é o mais importante” e outras coisas do género a razão principal é esta aqui exposta. O material e a técnica são quase os mínimos higiénicos. É algo fácil recriar técnica. É como uma receita ou um truque de ilusionismo, incluindo as possibilidades enormes da pós-edição.

 

Vou deixar só uma lista de coisas que a meu ver melhoram as fotos de forma espectacular e eu não fazia ideia.

1- Luz, momento do dia… Faz uma diferença colossal em tudo o que meta luz natural. Se estamos de férias a passear vamos tirar fotos à medida que surgirem os temas,  tudo bem, mas se o objectivo é tirar a melhor foto possível, é preciso ter em conta quando a luz será melhor. A luz de início de dia ou fim de tarde é normalmente a melhor, mas pode haver necessidade de luz a vir de sítio tal e tal (por exemplo, em arquitectura, para realçar formas com sombras, texturas ou num bosque, para ser filtrada pelas folhas etc.) e dura muito pouco, por isso é preciso planear. Às vezes o momento espectacular dura minutos apenas.  Se for landscape as nuvens são vitais para conferir dramatismo ou dinâmica.  Por exemplo, passo por aqui quase todos os dias. Neste dia vi logo de manhã que as nuvens estavam boas e que isso podia dar uma boa foto ao fim da tarde quando fosse para casa.

cloud

Aqui o exemplo de uma foto falhada. Entre vários motivos, as condições eram péssimas.

OLYMPUS DIGITAL CAMERA

2 – Uso de aberturas grandes para depth of field shallow recorrendo a fast lentes com f1.8, f2 etc.. Impossível de obter com iphones. Por isso vão querer uma máquina com lentes intermutáveis e escolher primes rápidas, visto que as zooms rápidas custam fortunas e são mais adequadas para profissionais. Com aberturas grandes podemos focar exactamente e desfocar o que queremos e isso realça a fotografia (as fotos não são minhas) dof

O uso de dof’s curtinhos coloca desafios novos. Aqui nesta foto da minha cadela e da mão da minha filha o foco na realidade acabou por ser o pauzinho e o nariz dela. Os olhos já estão ligeiramente desfocados e penso que a foto teria sido melhor com o foco no olho mais próximo, uma vez que o tema é a expressão de enfado dela perante as insistências da minha filha. É também aí que a diagonal que vem da mão da minha filha pára e onde o olhar do espectador deve repousar. É uma foto engraçada, mas imperfeita.

nose

A nitidez melhor não começa logo em f1.8 com lentes mais em conta, é uma questão de ver as reviews . Aqui as full format profissionais podem ter vantagens para quem gosta do efeito de um dof muito ‘shallow’ Não é para todos os gostos. Há fotógrafos que se queixam de falhar o foco muitas vezes ou que se torna cansativo ter sempre só uma pestaninha focada e o resto blurred (esta foto não é minha)

shallow

Mas o ponto é que trabalhar com as profundidades de campo acrescenta uma densidade nova às fotos, especialmente os retratos e não só, acentuando um ponto que se quer evidenciar e evitando imagens caóticas cheias de ruído.

3 Tripé. Eu como gosto muito de paisagem  e como a melhor luz costuma ser ao fim do dia ou início, ou seja, luzes  baixas com exposições longas e aberturas pequenas para focar o mais possível “tudo”, não tenho outro remédio. Uso também um disparador (custa 2 euros…) para a máquina não tremer ou o timer de 2 segundos, só para eliminar vibrações.

f1

É daquelas dicas nº1 da maior parte das listas e compensa o uso de lentes ou máquinas menos pros em muitas situações em que estamos a fotografar coisas imóveis. Um bom tripé dura para sempre.

4. Rule of thirds…

Claro que as regras são para serem quebradas blah blah, mas este é um ponto de partida óptimo para competência. As máquinas têm estas guidelines nos viewfinders. Um truque é colocar o ponto de interesse num dos 4 cruzamentos de linhas. O horizonte não deve ficar a meio, mas sim a 1/3 ou 2/3 como nesta foto que tirei no cabo carvoeiro.

23

A foto tem vários problemas, a começar pelo polarizador que, apesar de eliminar os reflexos indesejáveis na água, criou uma mancha escura no topo ao centro. Também usei f22, muito para la da zona em que esta lente permite nitidez aceitável (f16 máximo), por isso as nuvens ao fundo estão “fuzzy” quando deviam estar em foco perfeito em contraste com o mar desfocado pelo movimento das ondas que captei com um filtro de densidade neutra + polarizador, o que me deixou ter uma exposição de 2 ou 3 segundos. A decisão de encher a foto de céu ou de mar obriga a uma escolha criativa e nisso ficou ok. No tratamento devia ter aberto mais a exposição, mas aí a falha foi do mau monitor que tinha na altura. Espero repetir a foto, mas terei de ter a sorte e voltar a ter esta luz e aquelas nuvens.

 

 

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3 thoughts on “a busca

  1. Eu tive as minhas “fase fotografia” há muito tempo atrás. Primeiro ainda adolescente, tudo por culpa da tal zenit analógica, que tendo uma bonita história por trás, me despertou a curiosidade pela fotografia; e mais tarde, já em inícios de 2000, onde percebi que me faltaria sempre a perseverança e paciência para ir melhorando. Mas ainda hoje dou por mim a fazer rectângulos com os dedos e imaginar como ficaria o enquadramento. E continuo atenta a pormenores, a minha paixão fotográfica.

  2. É fácil para ti que pensas como um analista, reconheces padrões facilmente, e aprendes com isso. Conheço pessoas que arrastam maquinões há anos e não conseguem tirar uma foto decente porque são burras, não têm capacidade de analítica, poder de observação ou sentido crítico (passo horas no Photoshop a resolver os erros de maus fotógrafos e o problema é quase sempre a iluminação).

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