nomes – ainda falta romper barreiras

Revisito este tema. Curioso como em Portugal há uma relação estranha com os nomes das pessoas e parecem culturalmente circunscritos a um leque reduzido de opções, especialmente nos homens em que António, José, João ou Manuel são exemplos de escolhas seguras intemporais. Depois há nomes de homens bastante comuns que acho feios como Rui, Jorge, Bruno, Nuno ou Paulo e se já ofendi alguma mãe nesta fase, lamento.

Pensei neste tema a propósito do nome da Júlia. Algumas pessoas gostaram, mas outras disseram-me que Júlia arcaico, pesado ou que lembrava a versão masculina (Júlio). Eu confesso que tinha a cabeça em referências de que gostava, como a música de Lennon, e não propriamente numa tia avó paterna.

Podia aqui elaborar um tratado cinestésico nabokoviano sobre a de Júlia, a forma como é um nome fluído, russo. O curioso é ver que ninguém acha estranho uma Julia Roberts, Julia Stills ou Julia Dreyfus. Nem canções dos Eurythmics, John Lennon, OMD ou Pink Floyd com Julia no título.

Até calha não ter uma sonoridade colada à língua portuguesa (Laura, Sofia ou Alice são outros exemplos, mas isto não é critério, gosto muito de Inês, por exemplo). Um nome como o meu é um exemplo de algo que não é bonito na sonoridade portuguesa, especialmente quando comparado com os muito mais elegantes Laurent (francês) ou Lawrence ou curto Lou de músico jazz numa cave. Paciência. Lourenço é tão mau que as pessoas tendem a tratar-me por Lou, Bray, Lawrence. E alem disso acarreta um estigma cultural – felizmente o estigma cultural o oposto de um Ruben ou um Nelson nesse sentido.

Penso o mesmo de nomes que parecem algo queimados. Por exemplo, Vanessa, a da canção do António Variações que se podia ter chamado antes Maria Albertina. Mas Vanessa Redgrave não irradia elegância? Podia continuar. Marlene ou Eva. Cátia. Tudo nomes que em actrizes podem ficar soberbos, mas que por cá são algo críticos.

Vivian Leigh é um nome fantástico, mas uma menina chamada Viviane Lino já seria mau. A reflectirem e comentar.

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22 thoughts on “nomes – ainda falta romper barreiras

  1. O critério, acima de tudo, deve ser o de permitir à criança não ser estigmatizada no futuro, especialmente numa profissão. O Manuel pode ser pedreiro ou general, já uma Pamela ou Enzo que sejam médicos é algo estranho…(viva o preconceito social, eu sei).

  2. Eu acho que a questão da escolha do nome deveria resultar da combinação do gosto dos pais com o bom senso, mas depois se gostamos de um nome, o bom senso nem sempre vinga. Isto para dizer que há nomes que não poria nunca a um filho, como por exemplo, o nome do avô/avó, do pai ou da mãe. Compreendo que para muitos seja uma forma de homenagem, mas entendo que o nome do filho deve estar isento de carga histórica. É o nome que vai acompanhar a sua vida, no caminho que ele decidir trilhar. Não deve levar o peso de um passado (nome) que, por muito digno que seja, não é o dele. O dele será outro diferente, definido pelas suas escolhas e caminho de vida. Foi nisso que pensei. Dei ao meu filho um nome de cuja sonoridade eu gostava, que me remetia para outras línguas, sendo que uma delas teve influência para que ele viesse a existir; e não conhecia, à época, mais ninguém com esse nome. É teu homónimo. Porque dizes que é mau?

    1. digo que é mau sobretudo comparado com as alternativas estrangeiras. Suponho que hoje os tempos sejam outros e esse nome já seja muito mais normal. Eu cresci a perguntarem-me “mas qual é o teu primeiro nome!?” porque em todo lado assumiam que Lourenço era nome de família. Na vida só conheci 1 Lourenço da minha idade, curiosamente num torneio de xadrez . Mas conheço muitos da minha geração que chamaram Lourenço aos filhos, até bons amigos.Seria preciso consultar registos e aquelas estatísticas para perceber estas tendências, mas foi o que senti. Não sei se não está ligado a nas últimas décadas uma maior massificação dos padrões clássicos ou “betos”. Constança, Leonor, Alice, ressurgimento de Maria, etc. Também pode ser impressão minha, mas talvez hoje os pais estejam mais conscientes dos juízos de classe que um nome pode acarretar, positivos ou negativos.Também é importante o 2º nome, a conjugação, não só para evitar os Adolfo Dias, mas para ver a métrica, as rimas, a sonoridade. Eu acho é que nomes de meninos é muito mais difícil. Eu não chamaria Júlio a um menino por exemplo.

      1. Chego à conclusão que sou uma simplória. Só mais tarde é que me apercebi que Lourenço estava no mesmo saco de outros nomes considerados “betos” (é que dá não ler revistas cor de rosa e viver na ruralidade), mas ainda assim continua a ser o meu nome preferido. Quanto à questão do segundo nome e porque, como qualquer criança que nasceu na década de 70, tenho um segundo nome que sé serviu como aviso de “alhada em curso” pelos meus pais, optámos não lhe pôr segundo nome. E ele percebe que a coisa está brava pela minha voz. Para quê complicar? Mas concordo contigo na questão de que hoje há provavelmente mais cuidado na escolha do nome, mas no fim acho que ainda ganha o gosto (bom ou mau) dos pais. Se tivesse sido menina seria Alice. Apenas porque gosto da sonoridade, soa-me de forma aberta, ampla, tal como eu gostaria que fossem os seus horizontes.

  3. Depois há aquela fase em que eles nos questionam o porquê daquele nome e não outro [“outro” que eles até gostam mais, se tivessem tido voto na matéria 🙂 ]
    Lou :), o meu filho quando viveu em Inglaterra deixou de ter nome próprio…era tudo menos Gonçalo.

  4. O leque não é assim tão reduzido. O suposto “peso” dos nomes parece-me sobrestimado (e, durante a febre dos dentistas brasileiros, ninguém se importava de escancarar a boca perante um Dr. Enzo ou Fábio ou Riônio). Teremos em breve, se não temos já, a avó Jessica, a avó Erica, o avô Ruben, o avô Igor. Alguns ficarão, outros levarão o caminho de esquecimento que levaram os nomes próprios dos meus avós: Emília Joaquina, Alzira, Américo, Augusto. Tenho raízes numa aldeia em que a geração do meu pai foi brindada com nomes como Gracelino, Miquelino, Marcolino, Marciano… Nem por isso foram menos felizes e não constava que recorressem a anti-depressivos para fazer face ao escárnio dos António, José, João ou Manuel deste mundo. O nome não é uma abstracção, é de quem o carrega e de quem o emprega. Acho perfeitamente normal que alguém entoe com profunda afeição nomes como Ruben Ramiro ou Jessica Cynthia. Parafraseando a Catarina Martins, prefiro ser operado por um Ruben Nelson que tenha sido feliz que por um Salvador de sapato de vela…

  5. Olha, eu gosto do nome Júlia, também gosto de Lourenço e de muitos outros nomes. Até do meu gosto.

    Arrepio-me um pouco quando reparo que hoje em dia pais com nomes como Jéssica, Tatiana Vanessa, Ruben ou Gerson comecem a chamar os filhos de Matildes, Constanças, Duartes, Diogos, Sanchas, Santiagos ou Salvadores. Bom, o que importa, no fundo, é que a pessoa, mesmo um Aníbal, um Ednilson, uma Lizete, uma Violante ou uma Kellen sejam pessoas boas. Independentemente da classe social, que sejam pessoas boas. E isso é, cada vez mais, difícil de encontrar.

    Vareta, eu gosto do teu nome. Tenho um mano que adoro e que tem um nome igual ao teu. E mesmo que não tivesse esse mano, gosto de ti e o teu nome é bonito.

    1. Vês, Lourenço? Ainda há esperança para os “Rui, Jorge, Bruno, Nuno ou Paulo” desta vida…

      Coraçõezinhos, Patrícia!

  6. Critérios principais na escolha dos nomes dos meus filhos: serem curtos e “internacionais”, ou seja, facilmente transportáveis para um contexto extra-língua portuguesa (Júlia cumpre os requisitos). E também não serem nomes da moda ou considerados “betos”… que, ainda por cima, agora são usados por betos e não-betos – Martim is the new Ruben! E pronto, não fico muito ofendida por ver o segundo nome do meu filho na lista dos muito comuns e feios (tens razão, são todos menos um ;)).

      1. Verdade! Eu não gostava especialmente do nome Nuno, até me apaixonar por um. E, a partir daí, não só passei a gostar como fiz questão que fizesse parte do nome do nosso filho. Ainda antes de discutirmos o primeiro nome, já estava decidido que teria um segundo, e que esse segundo seria Nuno. E viva o Vareta e todos os seus homónimos! 😉

      2. True. E podemos rejeitar um nome para os nossos filhos por haver uma pessoa desagradável com esse nome. Por exemplo: Adolfo. Tinha de vir ao mundo um Adolfo muito fofinho para reabilitar o nome.

  7. Já uma vez comentei aqui que gosto muito do nome Júlia. Nenhuma das minhas filhas ficou com ele, mas não sei dizer porquê. Sofia é um nome de deusa grega, sábia, e esse sim, há cá em casa. Também gosto muito de Sara e uma Inês é quase sempre inteligente, tal como uma Cláudia.
    Tenho um sobrinho Lourenço que irradia charme, o miúdo faz sucesso na escola, mas eu chamo-lhe Lili também não sei explicar isso, a alcunha não é aprovada por ninguém da família, no entanto ele ainda não me odeia.
    Ruben e Nelson acho muito feios, tal como Vânia, Cátia, Tânia e Erica. Eva gosto. Nuno gosto muito, João também (será um homem terno, qualquer João), mas nada como António, um António é um ganhador.
    No campo dos russos, adoro Fiodor (mas sou suspeita) e Nikolai (idem), que deve ser o nome russo mais comum. Já Verónica e Vitória parecem-me agrestes, nomes tempestivos, no entanto agradam-me. Acho lindíssimo o não russo Anton (como Bruckner), mas lá está, é um António mais puro, mais belo.
    E pronto, comentar já comentei. 🙂

  8. Nomes que sejam iguais em português e inglês são uma vantagem hoje em dia (Laura, Alice, Julia) Há mais para mulheres do que para homens. O meu filho chama-se Vasco, um nome que foi bem recebido tanto pela ala comuna como pela ala neo-liberal da família, mas é um nome mau para ser lido “em inglês”. Também já escolhi uma médica pelo nome, estava farta de aturar betolas arrogantes com consoantes repetidas no nome por isso escolhi uma médica com um nome que alguns consideram “de subúrbio”. Imaginei que não seria médica por herança ou pressão familiar mas sim porque queria muito e estudou para isso, um estereótipo como outro qualquer. Tive sorte, não podia estar mais satisfeita com ela.

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