o ilusionismo.

Pelo excelente livro The Genius of Photography de Gerry Badger, vou descobrindo a história da fotografia.

Um dos maiores e mais influentes fotógrafos do século XX foi André Kertész  e o prefácio abre com esta foto de 1927 em Meudon, um subúrbio de Paris.
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A foto é uma das mais icónicas e não foi escolhida por acaso. Contém em si a essência da provocação que é lançada ao longo do livro. Ao fundo, um viaduto em obras, um comboio passa suspenso. O viaduto sobrepõe-se ao plano da cidade. Três homens caminham para longe da camera e sugerem-me (a mim) negócios, reforçando o tema do progresso que é sugerido pelo comboio e do viaduto em obras num limite (temporário) de uma cidade.

Isto é reforçado pela figura misteriosa e aparentemente com pressa, em primeiro plano, levando  algo embrulhado, provavelmente um espelho e não um quadro, pelos bordos redondos.

O facto da imagem estar aberta a múltiplas interpretações subjectivas é em parte o que a torna relevante, especialmente na época. O próprio embrulho e o suposto espelho pode mesmo simbolizar a fotografia, como refere Badger. O certo é que é surreal e transmite-me algo hostil e ligeiramente sinistro.

Kertész fotografou-a várias vezes antes, noutros dias.

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Notem como da 1ª para a 2ª as linhas dos telhados convergem com o viaduto e para a 3ª Kertész recua ainda  mais para o cimo da rua e para a esquerda para enquadrar de forma ainda mais claustrofóbica o plano. O comboio ausente na 1ª, aparece na 2ª e na 3ª finalmente exibe um fumo interessante e que sugere movimento, algo que não foi captado na 2ª foto.

As ruas sem ninguém têm agora pessoas a deambular. Outro debate é até que ponto está encenada. Especula-se que pelo menos a figura em primeiro plano com o quadro seja um amigo dele que tenha feito de figurante.

Posso referir o sem abrigo a dar pão às gaivotas no texto abaixo e foi isso que as atraiu e fui para o meio delas. Fotografei algo real, apesar de ter escondido o sem abrigo e o contexto espacial. Se eu atirasse o pão, já estaria a intervir na encenação do momento (o comparável Kertész era eu próprio trazer as minhas gaivotas de casa).

Acho inteiramente legítima essa manipulação.

(broken plate, André Kertész)

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