BANIF e os bailouts…

A extrema esquerda é a única que tem desde 2011 uma visão coerente sobre a solução para a banca, embora errada. Nos EUA o intenso debate ocorreu apesar dos bailouts terem gerado lucro e de terem travado uma depressão profunda. O debate ocorre porque há um custo mais grave: o dano moral / ético e a perturbação  das leis da concorrência, impedindo bancos mais conservadores, transparentes e bem geridos de ganharem mais quota e crescerem. Há estudos que demonstram que os bailouts incentivam os bancos a terem comportamentos mais arriscados. É certo que o facto de existirem garantia de depósitos também torna os depositantes indiferentes ao critério “segurança” pelo menos até um certo montante. Um cenário com o que acontece em Portugal em que os bailouts já somam mais de 10 mil milhões de euros seria impensável. E não vai ficar por aqui.

É claro que António Costa diz que não enfiar 3 mil milhões no BANIF teria custos muito graves para a economia, como diria Passos, Sócrates etc. Primeiro, deviam ser muito mais pedagógicos e explicar de forma concreta qual era a alternativa. Não é normal que uma TAP gere tanto debate e discussão e depois uma coisa que custa 10 vezes mais é despachada assim.

O certo é que isto vai muito para lá desse custo imediato de vermos um lesados do BES vezes 1000 e efeitos dominó. Primeiro, é inadmissível que uma empresa com apenas 3% de quota de mercado num ramo de actividade supostamente concorrencial e que se considera privada,  gere um buraco de 3 mil milhões que os contribuintes têm de pagar. Não faz qualquer sentido e qualquer debate ou explicação tem de procurar – como procura o PCP e o BE – ir à raiz do problema e não agir como se isto fosse um episódio circunstancial e inevitável. E não, a regulação sonhada por Costa, que àa boa tradição socialista de centralizar no Governo e multiplicar poleiros, não resolve coisíssima nenhuma, apenas as piora.

Não defendo a ausência de regulação, apenas que ela só será eficaz se deixarmos os bancos falir naturalmente e os buracos engolirem o que tiverem de engolir, lesando quem tiverem de lesar. Basta perceber que estes bancos passaram os testes de stress. Com uma ausência de transparência tão grande e a hipercomplexidade das operações num mundo global, como é possível regular? Alguém se lembraria de fazer um bailout a um hipotético buraco gerado pela VW se esta falisse por ter aldrabado os testes de emissão de gases?

Claro que isto só seria possível após um período de transição em que as regras fossem claras. Actualmente  – e eu estudei intensamente a banca – os clientes tendem a não distinguir os bancos entre si e só ligam a taxas de juro ou proximidade de casa. Mas eu aposto que se acabassem com as garantias de resgates e até dos depósitos, os clientes iam tornar-se extremamente mais cuidadosos na escolha das instituições e daríamos azo à inovação e ao surgimento de alternativas ao próprio conceito de banco como o vemos e que talvez não tenha mais cabimento no próximo século. Talvez uma das inovações seria um regresso a produtos ultra simples e a estruturas de  auditoria hiper transparentes. Isso poderia em muitos casos arrefecer a concessão de crédito e a mobilidade do capital, o que podia traduzir-se em crescimentos anémicos (é extremamente ineficiente ter riqueza parada), mas poderíamos caminhar para algo melhor.

Anúncios

3 thoughts on “BANIF e os bailouts…

  1. Não percebi se o cenário que acontece em Portugal e que seria impensável se refere a processos idênticos noutros países, mas vale a pena revisitar todo o “bailout” da AIG, de Fannie Mae e de Freddie Mac. Obviamente, nestes casos, não falamos de 10.000 milhões, mas de milhões de milhão. Todo o bailout foi orquestrado por Henry Paulson, que é agora chairman do Paulson Insititute, na Universidade de Chicago (escusado dizer, a alma mater de Friedman, ali em cima…)

  2. isto para não falar do bailout da GM:
    http://www.reuters.com/article/us-autos-gm-treasury-idUSBREA3T0MR20140430

    tendo a concordar com o escrito, mas não é assim tão simples: eu nunca teria problemas em colocar dinheiro no BES mesmo depois dos aumentos de capital, e como eu creio que a maioria faria o mesmo. é verdade que os aumentos de capital podem ser um indicador, mas neste momento os outros bancos portugueses “saudáveis” também recorreram recentemente aos aumentos de capital, o millennium e o bpi. como avaliar a solidez de um banco? nitidamente, o critério volume de negócios / quota de mercado não é assim tão infalível.

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s