os mutilados

mutilados

Definitivamente, a minha mãe em 2015 foi responsável por dos dois melhores livros que li. É muito difícil oferecem-me livros e eu gostar. Já falei no La Possibilité D’Une Ile de Houellebecq (o melhor escritor não-morto). Agora estou a terminar Os Mutilados de Herman Unggar (1893-1929), um autor e livro de quem nunca tinha ouvido falar a não ser aqui pelo Manuel a. Domingos.

Como definir? Já não escrevo sobre livros há muito tempo. Pensei imediatamente em Kakfa, mas também no Becket da trilogia Malone, Watt, Molloy, também um pouco de Knut Hamsun do Fome… Existe o universo do primeiro, em que o caos parece provir de um mecanismo de precisão demoníaca e sádico, um engenhoso enredo de personagens com vontades frustradas (toda gente quer algo, especialmente do protagonista que só quer que o deixem em paz), mas por outro lado há temas mais explícitos e hiper-realistas, como pesadelos em que detalhes são ampliados, a exploração do tema do corpo e da sexualidade (extremamente avançado e violento), da relação desta com o corpo e o poder, da decadência, da morte. Poderia fazer o enquadramento histórico, o livro foi para a lista dos livros a queimar pelos nazis (diz na contracapa), mas aí teria de fazer pesquisa. Farei, mas depois, isto aqui é uma reacção espontânea apenas ao texto. Não deixa de ser curioso ver um judeu rico ser progressivamente reduzido a uma massa desmembrada vulnerável a uma mulher jovem e um enfermeiro ex-talhante, especialmente se tivermos em conta que foi escrito em 1928 na Alemanha.

Comparar Os Mutilados a grandes obras de Kafka ou Becket neste caso para mim é mesmo colocar Hermann Unger ao mesmo nível, sem qualquer exagero.

O facto deste livro ser para mim desconhecido em 2015 também diz alguma coisa sobre a literatura. Com a música temos ao dispor algoritmos inteligentes que relacionam imediatamente as bandas que influenciaram ou que soam parecido ou que outros ouvem. Uma espécie de “se gostas de Kafka ou Becket, talvez gostes de Herman Hunggar” etc. E é fácil ver. Numa hora podemos ouvir 20 bandas. Na literatura não é assim tão fácil. Também não é difícil. Só não é tão fácil. Mas vale a pena o esforço, a vida é muito curta. A de Herman Unggar, infelizmente para os leitores, foi.

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9 thoughts on “os mutilados

  1. 🙂 Como hmbf só há 1, eu e mais nenhum, deves estar a fazer confusão. Não me lembro de alguma vez ter falado desse livro, embora já o tenha tido em mãos por diversas vezes. Olha, desta feita serás tu a vender o livro. É agora que o trago para casa.

  2. O Manuel não vota, pá. Eu é que sou comuna. Estás cada vez pior. Devias ler mais poesia, há revistas que dizem que é melhor do que livros de auto-ajuda. 🙂

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