as aleijadinhas da bd

Este caso demonstra até que ponto a neurose do feminismo pode ir. Festival de BD. 30 finalistas. Nenhum é mulher. Boicote. Festival volta atrás e já inclui mulheres. Não deixa de ser irónico que o próprio Manara (de quem gosto muito, mas que fez a carreira a desenhar mulheres nuas em histórias eróticas /pornográficas) tenha feito um boicote.

«em quarenta anos, o festival de Angoulême atribuiu apenas uma vez o Grande Prémio a uma mulher, quando Florence Cestac venceu em 2000». Isto é um sinal de quê? Não sei. Para mim, podia ser de duas coisas,  de que a tal Florence Gestac deve ser boa e não sei quem é e devia ver, e de que há muito menos mulheres a fazer BD do que homens.

O que é, aliás, o que o desgraçado do director do festival alega. Como é nos prémios de arquitectura, por exemplo? Não me lembro de uma arquitecta. Deve haver, mas não conheço. Já na fotografia lembro-me de várias. Porquê? Não sei.

Desconfio que a identidade sexual tem muito a ver e que não só tem impacto no tipo de obras produzidas como na vontade de as fazer ou de fazer obras daquele tipo. Estou fortemente influenciado pela fotografia que ando a ver, mas não deixa de ser curioso que Cindy Sherman ou Annie Leibovitz sejam lésbicas por exemplo. No caso de Cindy Sherman (que adoro) penso que isso é relevante porque ela se fotografa como uma mulher, mas ao mesmo tempo atira-nos à cara os clichés da mulher na sociedade, no cinema… talvez uma lésbica talentosa esteja mais capacitada para gerar esse tipo de arte. Ou seja mais provável. Ou que sendo lésbica isso evite que seja mãe e que tenha uma vida “normal” e que toda vida tenha sido uma outcast à procura.

Voltando à BD, há mesmo uma conspiração nisto,  são mesmo aleijadas na bd e precisam de quotas como defendem as activistas (implicitamente)? Se temos tantas mulheres com hits brutais na literatura (JK Rowling, EL James) por que raio havia de haver um preconceito editorial ou crítico no contra mulheres na BD? Isto não invalida que, como sucede em tantos concursos, haja escolhas questionáveis e que entre elas esteja a não inclusão de um desenhador muito bom que por acaso é mulher.

Concluindo, eu gostava que a minha filha nunca pensasse como “mulher” nesses domínios, como desenhar BD, fotografar ou escrever, coisas em que um objecto é completamente independente do corpo e da figura ou da idade de quem o faz (basta pensar na figura do George R.R. Martin) ou na quantidade de mulheres que escrevem best sellers como a JK Rowlng o EL James). Não que ser mulher não tenha influência no que se faz. A minha educação para ela passa por não lhe oferecer um só brinquedo de “gaja” como ferrinhos de engomar ou nenucos. Já um kit de cozinha, um fogãozinho, hey, eu adoro cozinhar e ela ajuda-me. Outra questão, por que motivo os chefs são quase todos homens, quando culturalmente quem cozinha em casa para as famílias são as mulheres? Fica o debate.

 

*Nota importante, chegou à nossa redacção a informação que a cindy sherman não é lésbica. Estou confuso e tenho de reflectir.

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45 thoughts on “as aleijadinhas da bd

    1. Isso é diferente. No mundo da gestão por exemplo ser mulher não tem qualquer comparação com o da BD ou da literatura, fotografia… Eu vejo várias coisas, desde um certo machismo / misoginia e uma cultura que impede uma empatia mais fácil entre homem -mulher, como a que existe entre homens, até mulheres que de facto não têm qualquer perfil para chefias e se queixam de discriminação sem razão para tal. Conheço casos de mulheres chefes e administradoras e têm uma autoconfiança e assertividade pouco comum nas mulheres no mundo do trabalho. Também sei de maus exemplos, como em tudo. Não me lembro assim de repente da empresa que tem uma mulher espectacular que não é promovida porque os donos da empresa preferem ter um homem idiota à frente para os fazer perder dinheiro.

      1. “Não me lembro assim de repente da empresa que tem uma mulher espectacular que não é promovida porque os donos da empresa preferem ter um homem idiota à frente para os fazer perder dinheiro.” Oh Lourenço não te zangues, mas o mundo não é a tua experiência, há tantos e tantos exemplos. É claro que não é assim simples como descreves, uma coisa é a competência, outra coisa é a visibilidade da competência. Quantas empresas é que têm mulheres que fazem o trabalho todo e depois o chefe homem é que fica com os créditos?

      2. Não sei se trabalhas no mundo corporate, ou se também é de estudo. Isso é um preconceito, o que dizes. Eu sim e no latino. As razões pelas quais a meritocracia nem sempre funciona, o tal fulano A faz o trabalho B e fulano tal é que é promovido etc têm pouco a ver com questões de género a não ser nas questões práticas (ex: a mulher pode engravidar ou espera-se dela mais dedicação aos afazeres familiares). Eu sou pai solteiro e já pus completamente de parte cargos de chefia ou ir lá fora fazer um MBA. Num processo de possível contratação para um cargo de direcção comecei logo por dizer que era pai solteiro, que 50% dos dias tinha de sair às 18:30 e que de resto não me via a fazer noitadas consecutivas. É racional que uma empresa preferisse uma mulher solteira sem filhos por exemplo, em vez de me escolher a mim 🙂 Logicamente, há muito mais mulheres na situação de mães / mães solteiras etc. do que homens. Não acho mesmo que seja um raciocínio de “é mulher, é incapaz”. Mesmo. De todo. Fartei-me de conhecer mulheres directoras e administradoras… O problema começa por achares que é o “trabalho todo” que confere a uma chefia maior ou menor capacidade… não é assim. Não é justo, não digo que seja, mas há detalhes. Vejo perfeitamente. Ter jeito para trabalho comercial ou orientar equipas, etc. não tem a ver com trabalhinho de formiguinha. Em Portugal vejo sim muito mais facilidade em quem vem de boas famílias, seja homem ou mulher. Mas não acho que isso seja exclusivamente uma questão de “cunhas”, tem mesmo a ver com isso por vezes ser um critério essencial para uma certa maturidade quer no mundo empresarial (pais, avós, é tudo gestor, empresário) quer do ponto de vista de networking. Essas pessoas entram em reuniões e conhecem-se todos. Mas por outro lado o mercado é impiedoso. Empresas mal geridas perdem face a empresas mais bem geridas que procurem os melhores no mercado de trabalho, sejam mulheres, gays, pretos, etc.Isso é claro. Países onde a discriminação e supressão das mulheres seja prática cultural estarão sempre em grande desvantagem económica (social, militar, etc.) face a outros onde as sociedades sejam mais abertas. Basta ver o que se passa e passou na banca portuguesa, tradicionalmente um dos sectores onde o nepotismo familiar era mais forte…. não vai sobrar nada.

      3. Pois, não estava mesmo a falar do mundo “corporate”. Estava a falar das pessoas que trabalham no sector produtivo, nas fábricas, no comércio, na distribuição, no funcionalismo público, nas pequenas empresas de serviços.

  1. E no mundo dos videojogos, não achas que há uma hostilidade para com as mulheres? Está mais do que documentada, se pesquisares. A violência e objectificação das mulheres no mundo da BD e dos videojogos parece-me algo evidente. Não estou a dizer que seja este o caso, mas se tiveres um júri composto por homens que acham normal as mulheres serem sempre representadas de forma hipersexualizada e objectificadas (nem sequer se apercebem disso, nem sequer o questionam) se calhar preferem esse tipo de obras a outras em que isso não acontece, daí o “bias”. Acho que há muitas decisões inconscientes ou subconscientes que radicam em décadas de acumulação e absorção de cultura machista. Não acho que isso se resolva de um momento para o outro nem através de quotas aleatórias e gratuitas. Mas acho que sim, que se deve protestar e alertar para o assunto para que as pessoas pelo menos párem para pensar se estão realmente a ser discriminatórias nem que seja involuntariamente. Não acho que seja obrigatório haver mulheres em todo o lado. Acho que é obrigatório mostrar quando isso acontece e tentar perceber porquê, e perceber se é um hábito enraizado por anos e anos de desvalorização das mulheres e do seu trabalho. Ou achas que é mito isso das mulheres ganharem menos que os homens? Fica o debate.

    1. Não acho um mito. Acho que sim, que são objectificadas nos videojogos, mas não diria hostilizadas, o que é uma diferença enorme. Acho interessante essa objectificação, como acho normal elas objectificarem os homens, como de resto fazem ampla e abertamente. A piada é que hoje em dia diálogos como os do sexo e a cidade sobre um homem todo bonzão e o tamanho do coiso dele passem como comédia ligeira e se fosse uma série light com homens a discutir as mamas de fulana tal isso teria uma carga politicamente incorrecta de tal ordem que o canal de tv tinha de fechar 😀
      Quem joga jogos na maior parte das vezes são homens. Por isso hey… Façam os vossos jogos de mulheres em que há homens sensíveis ou então bonecos playboys de plástico. Para mim é indiferente. Os homens não se importam de ser objectificados e usados. De resto generalizas. Vários videojogos são poderosamente feministas ou destroem os preconceitos. Acho Hollywood muito, mas muito pior. Os videojogos são contra-cultura dentro do mainstream. Quanto à BD não sei o que dizer. Eu até pensava que o Enki Bilal era uma mulher pelo traço. Não acho, sobretudo na BD francófona (nos comics americanos era outra história, mas que eu saiba têm mudado) que haja essa questão. É tudo uma questão de gosto dos tempos. Acho bem que chamem a atenção e tudo. Acho ridículo em campos como os da BD, literatura etc. Acho normal noutros (ex: actrizes que falam na questão de ser normal actores de 50 e tal anos contracenarem romanticamente com actrizes de 20 e poucos etc., )

      1. Pesquisa sobre a hostilização das mulheres nos videojogos. Durante décadas houve séries de tv em que homens falavam sobre o tamanho das mamas das mulheres e faziam piadas sexistas.
        Quando as miúdas desde os 10 anos têm de ficar em casa a ajudar nas tarefas domésticas enquanto os irmãos brincam na rua, achas que vão querer ser cozinheiras? Lá porque não é a tua experiência não quer dizer que não exista.
        “Façam os vossos jogos de mulheres em que há homens sensíveis ou então bonecos playboys de plástico”. LOL Os nossos contra os vossos, não podemos todos ser amigos? “Os homens não se importam de ser objectificados e usados.” LOL “Os videojogos são contra-cultura dentro do mainstream.” LOL.
        A tua ingenuidade surpreende-me sempre. A maneira como extrapolas a tua posição sobre as mulheres para a posição dos homens em geral sobre as mulheres é no mínimo fofinha. Há milhões de páginas escritas e estudos publicados a demonstrar que a discriminação de género existe e tem efeitos reais desde muito tenra idade. Há um desequilíbrio gravíssimo que não pode ser resolvido fazendo de conta que tudo está normal e que as coisas se vão resolver por si, porque não vão, estamos em 2016 e as desigualdades continuam a ser gritantes. Achares que é só um malentendido e que é uma questão de vocação e que as mulheres é que têm de mudar o seu comportamento é remendar um buraco numa barragem com fita-cola. És boa pessoa e acreditas na igualdade de oportunidades e direitos e não discriminas as mulheres, ok, fixe, acredito em ti, és um gajo porreiro, não tenho dúvidas que estás de boa fé. Agora não podes é ser ingénuo ao ponto de achares que toda a gente é como tu, e que o enviesamento e distorção com base no género é uma gigantesca coincidência ou uma alucinação colectiva. Beijinhos.

      2. Eu conheço os videojogos porque sou hardcore gamer desde que apareceram. Os videojogos são uma forma de arte semelhante à BD. São contra-cultura hoje em dia. E quem não os entende, tem sempre uma imagem distorcida dos mesmos. Nem sequer são uma “causa”. Eles são um produto que satisfaz uma necessidade para um público alvo. Se uma heroína é tratada de forma hipersexualizada e fetichista, é porque o gamer adolescente tendencialmente masculino gosta. As mulheres tendem gostar de merdas como a wii e jogos fofos. E sim, já vivi uns 10 anos com namoradas em casa e a ver jogos e a jogar em conjunto. Sei que no mesmo jogo eu preocupo-me em matar o dragão e uma mulher a jogar àquilo vai achar piada é a coleccionar os objectos raros espalhados pelo mapa e não gosta do conflito. Isso está AMPLAMENTE estudado e li muita coisa sobre design de videojogos no ano passado. Esses perfs existem.
        Quanto ao sermos todos amigos, o que não entendes é que se de facto um produto /prémio/ empresa discrimina mulheres merecedoras, então isso abre uma oportunidade para outras terem mais sucesso. Por exemplo, um jogo que seja cativante para ambos os sexos tem um mercado potencial bem maior. Agora quando começam com a conversa de chacha sobre videojogos, cinema, rock, arte, epá… não me lixem. Não é por aí. Podem e devem criar coisas alternativas. E estou a focar-me exclusivamente na criação artística, como sabes estou plenamente consciente de que há muitas razões e batalhas para o feminismo. Agora dizer que os videojogos ou sei o que for é que são os responsáveis lembra-me a conversa sobre a violência nos EUA e os videojogos etc. é sempre o videojogo, o cinema, a arte, a literatura…

      3. “Se uma heroína é tratada de forma hipersexualizada e fetichista, é porque o gamer adolescente tendencialmente masculino gosta.” Isso não é adquirido culturalmente desde tenra idade? E porquê? E é bom que assim seja? E porquê?

      4. Não acho mal. O que é a Venus de Boticelli, a nudez na arte… É só por terem passado 500 anos que já é de bom gosto? Tenho a certeza que em 1960 o cinema, o rock etc. seria todo hipersexual. Esse discurso é apenas uma versão new age do Vaticano, do Islão, das religiões.. muitas feministas estão exactamente no mesmo plano que o João César das Neves quando se metem a falar de videojogos e cinema. A emancipação total é as mulheres terem direito à projecção das suas fantasias na arte, nos videojogos, sem serem julgadas. E claro, a todos vermos na harmonia de uma economia de mercado e num estado com leis.

      5. É muito discutível que a indústria multimilionária dos videojogos, onde os bestsellers são os CODs, os GTAs e os FIFAs, e os multiplayers RPGs, etc, seja contra-cultura (mas até pode ser uma discussão interessante, como discutir se o hip hop ainda é contra-cultura, p.ex). Parece-me que continua a ser nas áreas dos jogos indie, que, curiosamente é dos sectores mais progressistas e sensível às questões do género dentro do que é o gaming hoje em dia (onde as mulheres já são 50% dos gamers).

        Já dentro da subcultura do “hardcore gaming” (que talvez também tenha alguns aspectos de contra-cultura, ok), dos pc master racers, dos modders, etc, o sexismo, a objectificação e a hostilização em relação às mulheres – dentro e ao redor da indústria – são evidentes. É só ver o que se passou no shitfest que foi o #gamergate, que até teve impactos culturais que extravasaram para áreas como a crítica de cinema ou a comédia. Aliás, chamar hostilização a perseguições, ameaças de morte, de violação, doxing, swating, etc, a jornalistas, investigadoras na área e game developers, sobretudo por serem mulheres (e terem opiniões), é um eufemismo.

      6. Quando digo contra-cultura pensei em fenómenos como o Grand Theft Auto ou Fallout (saiu agora o 4). Estes que referi são bestsellers de topo e estão muito, muito à frente do que se faz no mainstream de cinema e da televisão. O FIFA ou FPS são inóquos para um lado ou para o outro. Não conheço esses casos, mas acredito, mas aí estás a lidar com os talibans dos geeks alienados dos videojogos. Não tenho essa opinião da indústria, mas pela minha experiência, os gamers mais dedicados são quase sempre homens. Nunca me esqueço de uma namorada que tive que me obrigou a arrancar o poster do GTA Vice City da parede, porque tinha uma mulher de bikini e ela achava ordinário. Agora no Metal Gear V há uma personagem, a Quiet, que tem de estar despida o tempo todo porque “respira pela pele e as roupas sufocam-na”. Adoro isso, faz-me rir. E abro mais uma cerveja. Deixem-me.

    1. Obrigado. Pelo meu post nunca quis deixa implícito que mulheres não podiam ser grandes arquitectas mas a Madalena tem de concordar que a proporção de prémios Stirling ou Prtitzker ou o raio deve ser de 10 homens para 1 mulher e é esse o ponto.

      1. Claro q sim, tem razão.
        Como disse que não conhecia nenhuma arquitecta quis apenas mostrar-lhe que apesar de minoria existem e vale a pena conhecer 😉

  2. Já agora pergunto se o facto de não haver um único Nobel da ciência negro se deverá ao facto de haver menos negros a fazer ciência por terem naturalmente menos jeito para isso, e terem mais para trabalhar nas obras. Fica o debate.

    1. A pergunta a fazer é 1) quantos negros fazem investigação científica desde que existe o nóbel. 2) os nóbeis são um reflexo dessa proporção ou não?
      Aposto que chegarás à conclusão que só tiveste um número relevante de negros a fazer ciência bem no final do século XX (nos EUA nem nos anos 60 tinham direito a educação universitária) e que o prémio não faz mais nada do que reflectir essa proporção.
      O problema é se há menos negros a fazer ciência do que brancos. Se sim, “3) porquê?”
      Quanto a estudos sobre isso… Como é com os asiáticos ou indianos? Do que vejo há toneladas deles nessas áreas e ganham nóbeis, há vários chineses, japoneses e indianos na lista de nóbeis da física e matemática. Portanto hey, não acho que seja racismo, mas meramente uma questão orientação, culturas, contextos etc. Numa universidade americana, numa área de ciência, quantos são asiáticos, indianos, brancos e pretos? Eu lido com números, o resto interessa-me pouco. No caso da BD faria a mesma questão. Quantas mulheres publicam? quntos homens?

  3. Camarada Lourenço, é chegada a hora de lutarmos. Não há um único homem nos finalistas da Miss Universo! Sim, sei que parece impossível, mas são os factos. Informai-vos! Eu, por mim, já comecei a luta contra esta segregação inadmissível. À luta!

  4. Moço, isso da arquitectura foi um tiro na água. A Zaha, a Sejima, a nossa Inês Lobo, as centenas de arquitectas que trabalham para os grandes ateliers (esses sim criados quando ainda era clube do bolinha)…
    Fora isso, pegas na coisa pelos pés. “Voltando à BD, há mesmo uma conspiração nisto, são mesmo aleijadas na bd e precisam de quotas como defendem as activistas (implicitamente)?” – não é esta o ângulo que importa, parece-me. Descartas a importância de ter sido (e atenho-me ao que escreveste, ainda não li nada sobre o caso) organizado um boicote ao que é porventura o mais importante dos festivais do BD, ou seja, um boicote implementado por pessoas para quem Angoulême não é uma distracção visitável para ver uns bonecos: é uma questão económica importante.Achas mesmo que isso se faria por desforço, por uma súbita compulsão “politicamente correcta”, como gostas de lhe chamar? É fácil ridicularizar o fenómeno, como tu fazes, ou aventar que partiu tudo de uma gaja invejosa que não foi selccionada – mas um boicote pretende chamar a atenção para alguma coisa e duvido que tenha sido apenas um grupo de maduros rebarbados como o Manara a escolher fazer a coisa porque estavam fartos da escassez de mamas em Angoulême. Não haverá, certamente, uma conspiração – mas talvez haja algo muito pior: o hábito, a naturalidade, o achar normal porque sempre assim foi. O espírito Arroja.
    Também pegas constantemente pelos pés nestas questões de género: as gajas queixam-se mas até há oportunidades, elas que comecem a fazer as coisas “que nós fazemos”, mesmo que seja “à maneira delas” – e nunca te vi questionar a construção da masculinidade. Não veria problema algum em que desses “brinquedos de gaja” à tua filha, desde que tu e ela brincassem juntos com eles…

    1. Estás enganado sobre o que escrevi, mas isto vem já numa longa linha de pegares tu pelos pés os meus textos e distorceres sempre no pior sentido possível. Até fico comparado ao “espírito arroja”. Penso que precisas de alvos e como o PEdro Arroja não está à mão, vai de fantasiares uma série de coisas. Claro que sim, há um aproveitamento do politicamente correcto nas artes e noutros campos (ciência etc.) e há muito a ganhar. Manara tem imenso a ganhar, tem a ver com a reputação e vende. O feminismo vende, como vendo o eco friendly, os gay rights, as espécies em extinção, seja o que for. Sou liberal e por isso acho óptimo que o mercado recompense comercialmente cientistas, artistas, empresáros etc. que se esforcem por corrigir coisas que a moral dos tempos vai considerando ser preciso corrigir e não estou a ser cínico. Há dias um famoso qualquer doou 1 milhão de euros aos refugiados. Aquilo ajuda-o imenso. Aliás, estes tipos têm consultores de imagem e trabalham esses lados. Não é negativo, é positivo, atenção. Na BD, acho perfeitamente imbecil colocar a questão do feminismo na autoria e no reconhecimento. Ainda me parecia plausível discutir a exploração sexual das mulheres em alguma BD em 2015. Pelo menos discutir isso, sim. Mas na autoria de BD e na merda dos prémios? give me a fucking break…. É um lobby, o lobby das mulheres desenhadoras. E transformam um concurso numa anedota. A seguir é o quê? São africanos que se vão queixar de não haver bd africana? Dentro das mulheres, são as jovens? As velhas? Desenhadores gays sub representados? Paises da América Lantina? Fica tipo Nobel da Literatura, uma palhaçada em que é preciso ir preenchendo quotas e pensando “epá, não ganha um gajo da américa do sul há 10 anos, está na hora” etc.?

      1. Não é na autoria da BD, suponho, mas na visibilidade da autoria. Não te comparei ao Arroja, comparei o que poderia ser a razão para o boicote ao espírito Arroja. Há mais a dizer mas agora não posso.

      2. A outra coisa que eu queria dizer: a questão económica de que eu falava era precisamente a inversa da que suscitas. O que eu quis dizer é que vários dos que boicotaram/boicotariam Angoulême provavelmente sofreriam economicamente com isso, o que me leva a pensar que não seria uma decisão tomada de ânimo leve. Não vejo que o ‘target’ dos livros do Manara cresça desmesuradamente por esta tomada de posição e outros menos célebres teriam ainda menos a ganhar.

        Quanto a: “Uma editora vai recusar um livro de BD porque é de uma mulher!? Um elemento do juri vai desconsiderar um livro de BD (ou um prédio) porque é de uma mulher!?”, a questão não é assim tão taxativa. Parece-me perfeitamente possível (se não mesmo provável) que uma editora de BD onde não trabalhem mulheres olhe para a obra de uma desenhadora de uma forma “inconscientemente diferente”, que lhes ocorram coisas como “olha, para gaja até nem está mal”…

        Eu acho que pegas mal neste caso porque me parece que – pelo menos no que tens aqui escrito – não levas muito em linha de conta a natureza de lobby da própria “masculinidade”.

      3. Parece-me rebuscado e paranóico no caso da BD ou literatura, até consigo pensar em exemplos opostos. Aliás, o juri ter cedido ao lobby e incluído mulheres nas finalistas é um exemplo desse favorecimento. Compreendo, precisam de quotas, ajudinha, coitadas.

      4. de resto, se tens 1 gaja para cada 10 gajos a desenhar é normal que chame a atenção. Se tiveres 50/50 ou perto torna-se indiferente. É uma questão de tempo. O que se passa é que o activismo feminista que é bem direccionado numas áreas, existe em todas, incluindo aquelas em que não faz o menor sentido. É meramente um lobby de pressão. Vimos bem a reacção da LGBT ao lapso do José Rodrigues dos Santos sobre o Quintanilha. Ou podes ver o mesmo nas associações de direitos dos animais mais radicais. São como lobbys puros que existem e manifestam-se em todas as vertentes de igual modo.

    2. Bem e quanto a arquitectura, caramba, não sejas desonesto e arrogante. Muito bem, conheces arquitectas, parabéns. Vi agora mesmo a lista do Pritzker. Em 37 vencedores , só 2 mulheres, em 2004 e 2010. Chega? Repara que – de novo – não questiono que mesmo culturalmente a profissão de arquitecta não fosse desvantajosa para mulheres como é a de gestora por exemplo. Nem que em tendo 50 mil arquitectas e 50 mil arquitectos, é expectável que desses 100 mil arquitectos, os melhores sejam 50/50 de ambos os sexos! Mas se tiveres algo como 9 autores masculinos para 1 feminina, pelo menos no nível elegível para prémios (vá, os 1000 melhores arquitectos do mundo) é completamente normal que a proporção de agraciados seja também algo como 9 para 1. É uma questão de gerações e acho que se se calhar daqui a uns anos a proporções até se podem inverter, é ver a % de mulheres que se licenciam ou desenham ou caraças.

      1. Meu bom amigo, creio não haver desonestidade. O que se lê no teu texto, se me fizeres o favor, é: “e de que há muito menos mulheres a fazer BD do que homens.

        O que é, aliás, o que o desgraçado do director do festival alega. Como é nos prémios de arquitectura, por exemplo? Não me lembro de uma arquitecta. Deve haver, mas não conheço.” Do que e poderia depreender que extrapolavas para muito menos mulheres a fazer arquitectura do que homens, o que é uma realidade que se vai invertendo. Quanto aos números do Pritzker – prémio atribuído a uma carreira – acaba por ser sintomático que só neste século se comecem a contemplar arquitectas.

      2. Seria preciso números, mas acredito que sim, que só nos últimos anos por abertura da sociedade é que há mais mulheres a fazer arquitectura em todo o mundo, tal como provavelmente agora há mais arquitectos chineses por exemplo, do que há 20 anos. Eu não questiono a necessidade luta nesses domínios caso haja descriminação, o que questiono é que o problema esteja no prémio e num juri ou no volume de obras editadas, etc.. Uma editora vai recusar um livro de BD porque é de uma mulher!? Um elemento do juri vai desconsiderar um livro de BD (ou um prédio) porque é de uma mulher!? Assumir que esse é o problema parece-me meramente um reflexo dos lobbies que já não sabem onde traçar uma linha. Falei do mesmo sobre a histeria da LGBT com o deslize do orelhas sobre o “deputada mais velha” a propósito do Quintanilha. Já vão destravados por aí fora. Façamos jump forward uns anos e talvez as proporções de prémios de BD se equilibrem ou mesmo invertam

  5. (Existem arquitectas nos primeiros lugares no mundo. Por não conhecer não quer dizer que não exista! Cá em casa, o mnamorado é o chef, mas quem cozinha quase todos os dias sou eu.)

    Sou a favor da igualdade de direitos e deveres. Enquanto se falar de mulher/ homem numa determinada profissão, já se está a descriminar. O ideal será quando não falarem no sexo, aí não mais existirá distinção e haverá igualdade..
    VW

  6. Não sou a favor da igualdade, porque a igualdade, essa sim, é uma construção, ou melhor, uma invenção. A diferença é a regra absoluta da natureza, e todos devíamos era tender para as afinidades electivas, as nossa afinidades electivas. Em tempos mais sábios, o que isto significava tinha muito valor, o valor da presença e da conservação da alegria de viver. Em tempos desarranjados dos pés à cabeça, como este que nos calhou viver a nós, o dos blogs, o que todos esses “ismos” pretendem é lançar uma acha mais para o fogo do caos instalado, um caos verdadeiro sob o disfarce de uma ordem perfeita. Isto só pode ver quem pretender ser um pouco mais sábio do que a norma, ou seja, aceitar que uma certa ordem é necessária para que a alegria de viver seja real. Sendo mais concreto e dando exemplos: nós jamais poderemos corrigir a vida, transformá-la desde as suas raízes, podemos sim vivê-la e intervir a partir dela. Se uma mulher se sente discriminada, maltratada, sub-valorizada, cabe-lhe a ela, agir desde a sua posição na vida. Não tenho dúvidas de que terá tanto êxito quanto maior for o seu empenho em defender a sua posição (e aqui falo quase como se falasse de um jogador no terreno de jogo, trata-se mesmo de uma posição neste jogo em que todos estamos). Isso é tudo o que podemos fazer, homens e mulheres, em cada uma das posições em que estamos, e se o fizermos, estaremos a fazer muito mais do que todas as comissões protectoras, representantes dos direitos, etc que por esse mundo fora ganham a vida a defender os ofendidos. Se há mundo mais impenetrável para mim é o mundo feminino (sou homem, claro). É o mundo da maternidade (quer as senhoras queiram, quer não), o mundo onde o próprio humano se gera. Qual seria o sentido de eu querer agora pedir para mim (que sou homem, não se esqueçam, senhoras) um poder de gerar que não me foi atribuído pela natureza?

    (o meu humilde contributo para a luta dos insígnes Lourenço e Pipoco)

  7. Curiosamente, ambas as escritoras bem-sucedidas que apontas escolheram pen names que permitem que sejam (à primeira vista) tomadas por homens: J.K. Rowling e E.L. James. Não há coincidências.

    1. Talvez J.
      João? Talvez queiras que eu te tome por um homem por só colocares J. Serás uma Joana? Então e J.R. Tolkien? PEnso que há tradição na literatura usar iniciais e nome de família. TS Eliot.. não digo que não seja pensado. Não sei. Sei é que a JK Rowling escreveu para miúdos e que duvido muito que isso fosse relevante.

      1. (Foi relevante, sim. Lembro-me de ter lido que ela foi “aconselhada” a assinar J.K.Rowling porque de outra forma tornava-se mais difícil chegar ao público masculino. Aparentemente, os miúdos não lêem livros escritos por miúdas.)

  8. Claro que há uma tradição, e claro que há excepções (eu pensei durante muito tempo que D.H. Lawrence era uma mulher…), mas quando não sabemos o género da pessoa que está a escrever pensamos por defeito que é um homem (e, no nosso contexto, branco e heterossexual). Mulheres, pretos, homossexuais definem a sua identidade por relação a esse ponto zero. Eu sou uma Joana e tenho a sensação de que se assinar só J. se presta uma atenção diferente ao que eu escrevo.

    1. É verdade, o ponto zero ainda é esse (o homem branco). Era o que tentava explicar ao Vareta sem sucesso. Quando ponho entre aspas que quero que a minha filha “pense como um homem” é que pense no ponto zero. (o DH Lawrence escreve como uma mulher)

      1. Como disse uma vez a Sarah Silverman, “Don’t tell kids ‘girls can be anything!’ They wouldn’t have thought otherwise- just raise them strong, dummy”.

  9. E não achas problemático que o ponto zero seja o do homem branco? É que precisamente o facto de os interesses, características e comportamentos ditos de homem serem vistos como o normal traz uma série de consequências para o resto do pessoal que não é homem (branco, heterossexual). Se o normal é isto então existe à partida um benefício para quem encaixa nessa identidade, e uma discriminação para quem não. O status quo não é imparcial, e portanto lutas para o modificar não são sectárias nem “lobbyistas” com vista a beneficiar uma parte da população injustamente. São simplesmente de incorreção de uma parcialidade injusta que já existe mas que é tida como natural porque é o normal e portanto invisível. O facto de achares que só mulheres lésbicas – que supostamente no teu raciocínio são as mulheres que mais se aproximam de uma mentalidade masculina – podem singrar nestas áreas culturais devia ser prova suficiente de que há aqui um problema de bias grave, mesmo que ele seja inconsciente.

    Dizeres que queres que a tua filha se comporte/pense como um homem parece-me muito racional, porque pensando/comportando-se como um homem terá muito mais probabilidades de sucesso, especialmente nestes nichos que ainda são maioritariamente masculinos. Mas ela não é um homem, é justo pedir-lhe isso? Não era muito mais importante modificar o ponto zero para que deixe de ser tão homem branco para se tornar mais diversificado e portanto menos discriminatório à partida? É muito mais difícil do que simplesmente quem não se enquadra que se adapte, claro, mas a longo prazo é o caminho mais justo. O debate pode ser feito sobre as formas de o alterar: as quotas, que neste caso podem ser vistas como correções temporárias a uma situação que já é parcial à partida, ou simplesmente esperar que as fileiras de mulheres engrossem e a situação se auto-corrija (que se há discriminação real e um bias masculino não sei se alguma vez acontecerá).

    1. quando digo comportar-se “como um homem”, acho que pus sempre aspas, significa não pensar na condição de género sequer. Acho que a situação está a evoluir no ocidente, é preciso trabalho pedagógico, cultural e legislativo (ex: sou a favor de leis anti-piropo, anti-assédio etc.) e que o ponto zero vai naturalmente evoluir para a proporção que tiver de evoluir. Também acho, como disseram, que há diferenças substanciais entre sexos e orientações sexuais e que essas diferenças vão sempre manifestar-se nas tais proporções de sucesso ou presença em diversas áreas. Por exemplo, os jogadores de futebol masculino são incomparavelmente mais bem pagos que as mulheres. As modelos femininas são incomparavelmente mais bem pagas que os homens. Incomparavelmente. Também vamos ter um lobby dos modelos masculinos a reclamar?

      1. No dia em que as mulheres puderem não pensar em género sequer, será muito bom sinal. De resto, sim, é capaz de continuar a haver sempre diferenças de proporções de presença/sucesso em diferentes áreas, mas o importante é saber se esse ratio presença/sucesso está mais ou menos equilibrado para cada sexo e se não está, ir investigar. (Por exemplo, no caso da BD, há mesmo 30x mais homens do que mulheres a escrever BD? Duvido muito e só isso poderia explicar que a lista das 30 carreiras mais bem sucedidas fosse exclusivamente masculina.) Em relação aos modelos, nunca tinha pensado nisso, e acho interessante saber porquê. (Imagino que tenha alguma coisa que ver com a visibilidade, tal como no caso dos desportos)

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