escravatura da imbecilidade

Pacheco Pereira neste texto consegue o expoente máximo do delírio! Pacheco puxa a lágrima ao sentimento do “ser-se português”, vejam só, o homem que há uns anos se insurgia contra as tradições académicas e outras coisas do tipo, agora puxa do argumento Scolari da bandeira lusitana da pátria contra o papão europeu, alemão, até corporiza no ‘neo-judeu’ Schauble. Encontra paralelo na situação da dívida portuguesa para com o colonialismo, como se os pobres povos colonizados tivessem pedido aos portugueses que os colonizassem, como se tivessem pedido também eles duas décadas de taxas de juro alemãs e selo do euro para terem carros e casas, segurança social, saúde, educação, estradas, pontes… Pacheo aponta uma suposta humilhação e conspiração num texto que mais pareço um fado amargurado. É isto, o fosso cava-se aqui, o Syriza bem surgiu com o repescar da questão nazi, com os actos simbólicos militares, patrióticos. Mostrem-me um patriota, alguém que tem na língua o “por uma política patriótica” para discutir temas como a sustentabilidade das contas do estado e eu mostro-vos um pequeno Chavez in the making. A conspiração e a opressão dos “outros”, dos “interesses” (sempre obscuros, o interesse do Zé Miguel em pedir um empréstimo a um banco a taxas de juro baixas, o interesse do reformado ter a sua reforma etc.  esse não é o “interesse”, suponho, viu-se na Grécia). Podia ser o judeu, é o alemão, é a UE, são os partidos todos menos o PCP e o BE (que instiga Costa a bater o pé à europa!), são todos menos o povo português e o Pacheco Pereira, eles (nós?) somos as vítimas. Qual é a alternativa de Pacheco? Mistério. Vamos supor que Pacheco é minimamente honesto intelectualmente, fazer um enorme esforço, e assumir que a alternativa é não-pagar a dívida e abandonar o euro. O Pacheco sabe o que isso significa? Na Grécia souberam.  Um filósofo grego (não me recordo do nome) explicou que foi essa a escolha dos gregos: acima de tudo quiseram ficar do lado do ocidente quando perante duas incertezas porque eles sabem o que está do outro lado. E nós também que vivemos em permanentes falências e caos e depois décadas de fascismo e opressão. Foi a Europa e os “Schaubles” e “Merkls” dos anos 80, também na altura vilipendiados pelos Pachecos (lembram-se das campanhas anti CEE quando Portugal aderiu?). É importante debater as consequências e pesar os prós e os contras de sair do euro e entrar em default em vez de resumir os argumentos à patacoada ressentida e lunática que se viu na Grécia ou a prometer ao povo a viragem das páginas. Para mim, a mais grave seria, por exemplo, António Costa fazer o orçamento que lhe apetecesse. Já bastou o que foi.

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2 thoughts on “escravatura da imbecilidade

  1. contudo, vivemos tempos estranhos em que o conceito de soberania nacional se esfuma a cada orçamento.

    não me incomodaria viver numa europa federalista, governada a partir de frança ou alemanha, gostava porém de ter voto na matéria ou pelo menos a ilusão democrática de que tinha algum poder de veto sobre algumas propostas irracionais que pudessem aparecer aqui e ali. ou seja, se portugal neste momento não tem condições para ser um país soberano, assim como a grécia, espanha, irlanda, eslovénia, etc., tudo bem, quem é pobre não tem vícios, mas que se fale disso abertamente e que se procurem então soluções democráticas e humanas.

    não falar, decidir pelas costas, comunicando através de uma qualquer novilingua, pode ser visto por algumas pessoas como a tal tentativa de humilhação ou subjugação e poderá ter como resultado (ou melhor, está a ter) o crescimento da resposta mais simples e prática à humilhação, o fascismo, que em países como a grécia, polónia, hungria, frança, inglaterra está a crescer de forma alarmante.

    é simples, no contexto actual, as massas pobres e humilhadas, porque quem ganha o salário mínimo vai sentir-se sempre humilhado, votarem nos fascistas.

    1. concordo parcialmente (também sou favorável a um federalismo). Para além do fascismo eu incluo o Syriza e outra extrema esquerda, não vejo diferença nenhuma entre o discurso da Catarina Martins do “bater o pé à europa” e o da Marine Le Pen. É farinha do mesmo saco. O que me parece é que a soberania que temos dá para muito. Temos toda a soberania para decidir como redistribuir a riqueza do país entre nós. Não acho que a questão de não gastar mais do que um xis acima dos recursos do país seja uma questão de soberania ou da sustentabilidade o Estado Social seja uma questão de soberania. Acho que mesmo fora do euro precisávamos de ter essas variáveis controladas. Isto é, eu vejo a parte financeira como o nível de óleo de um carro ou de combustível. Só se transformou no cerne de todo o debate político porque os países não fazem o ajuste que precisam e os políticos estão sempre a querer vencer eleições para além de coisas menos claras e a corda está sempre esticada. Se tivermos as contas controladas o debate pode dirigir-se para outras coisas.

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