85mm e 18-35mm

city1

Até agora, a minha foto mais votada no https://gurushots.com/ no desafio cityscapes. É também a minha preferida. É curioso ver as diferenças nas reacções às fotos. Nunca vencerei nenhum desafio acho eu, são milhares de fotógrafos e as de topo costumam ser ultra pirosas! São quase todas péssimas, mas acabam por ser muito competentes na parte técnica (se estivermos à procura de fotos para colocar numa apresentação power point). Mesmo assim, se tivesse 4 city scapes destas, ficaria no top 1% acho eu. No meio de tanta coisa igual, tanto cliché, é mais interessante procurar algo original, mas igualmente competente.

Uma enorme vantagem destes desafios é mesmo a exposição às ratoeiras óbvias em que eu próprio pensei. Do novo escritório fiz várias experiências com uma grande angular para captar uma vista enorme, mas não muito interessante…. Mesmo que fosse, a foto seria igual a milhares de fotos bonitinhas que têm prédios e céus saturados. Quantas operas de sidney, torres eifel, perdi a conta ao arranha-céus com nuvens reflectidas…

Fui experimentando lentes, janelas, horas do dia… dava um saltinho a um lado, espreitava, testava (tenho vista quase 360º) . Fui o último a sair e desliguei as luzes. Então vi este prédio, tive de me esticar todo (12º andar e eu tenho vertigens). E pumba, foi com a 85mm mas o ideal até seria 150mm porque isto é um crop da imagem final.

Fiquei fascinado com a imagem logo na altura. Para mim é mais do que a coisa estética, são como vidas compartimentadas, gaiolas, bonequinhos de sims… ainda por cima estão vestidos à escritório, apanhei senhores de gravata, senhoras de tailleur, detalhes em cada gaiola, como ecrãs de computador, luzes diferentes, luzes apagadas… O ângulo é perfeito, mas tudo fruto do acaso. Se fosse uns andares mais baixo, mais acima, se estivesse mais à frente etc. perdia-se a profundidade tridimensional de cada gaiola, ficavam só quadrados de luz bidimensionais.

Depois demorei mais de meia hora a tratar esta foto. Não que esteja adulterada por aí além, mas a indecisão era o que fazer dela. Como disse, é um crop, ou seja, um detalhe de uma foto maior. Podia incluir o prédio quase todo, podia mostrar os limites, experimentei preto e branco… depois comecei a pensar no que era interessante na foto. Com o preto e branco iria perder as janelas azuis, mas ter mais detalhe perceptível nas caixas.

O que queria? Percebi que eram os detalhes dentro das caixinhas, a sucessão de detalhes… a vida numa ‘grande cidade’ abstracta e não o prédio propriamente dito, ou Lisboa. Então foi escolher a zona do crop para dar uma ilusão de fachada e padrão muito maior (vários amigos pensaram que a foto não era minha, mas de um filme e de um arranha céus em nova iorque: o prédio tem uns 10 andares acho eu).

Quanto à estética, optei por reforçar o detalhe perceptível , uma gravata, um penteado, uma cadeira, um computador, mas sacrificando o detalhe mais fino para reduzir ao máximo o ruído (foi tirada com iso alto, pois não consegui ter o tripé no ângulo certo. Queria que tivesse um feel pictórico, como uma infografia, um esquema (a foto tem  3 cores apenas). Tirei saturação ao laranja e amarelo para harmonizar mais com o brilho das janelas azuladas em cima, se não fizesse isso não podia puxar a exposição. Diminuí a exposição das zonas escuras, para tornar a fachada mais preta e uni-dimensional, de modo a reforçar cada caixinha de luz e dar-lhes profundidade, e garantir que a luz das janelas iluminasse uns rebordos.

Depois mais 10 minutos a ajeitar o crop, até que senti, é isto. E achei curioso ter sido mais uma com a 85mm nikkor. É com se a lente forçasse um minimalismo e os seus limites nos inspirassem. Tiramos uma foto a um rosto, um bocado de prédio, um pimento numa mesa…

E noto pelo menos pelo guru shots que a maior parte das pessoas usa e abusa da wide angle e até da ultra wide (e do oposto, a macro, para fotos fofinhas de gomas e lápis de cor) com toneladas de fotos iguais. Nada contra a grande angular!

Tirei esta foto que adoro, este domingo, com uma 18-35mm quand fui à procura de arco-íris com a minha filha. Foi a 35mm penso eu. É preciso saber usar e é muito difícil.

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Esta resultou por uma combinação de factores “mágicos”, desde o timing (o sol nos pilares da ponte neste ângulo), a textura da areia (que está no primeiro plano isso é essencial para a wide, eu estou quase agachado) a figura da minha filha com a sua hello kitty em primeiro plano a balançar na lama, isso também é bom no uso da wide, porque permite uma noção de perspectiva e escala, ampliando os espaços, sem ela ou a areia o campo ficava vazio , o contraste de luz rio, areia e sobretudo as três curvas, a margem, a ponte e a nuvem… aliás,a margem e a nuvem são quase simétricas, as sombras na areia são paralelas à ponte… enfim, não reparei em nada disto no momento, só na luz que estava incrível. Não digo que a foto esteja excelente, mas o ponto é que com a wide é difícil ter uma foto sem ruído excessivo, sem apanhar coisas que não acrescentam nada ou sem transmitir algo mais do que “isto é muito bonitinho”.

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2 thoughts on “85mm e 18-35mm

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