eleições, notas, vão-se lixar

sampaio

É verdade que Nóvoa disse que não faria acções de campanha até às eleições, mas o homem está tão desaparecido que alguém com bom senso no PS deve ter sugerido algo como contratar um rapto à máfia russa e mantê-lo (com todas as comodidades) numa quinta isolada,sem acesso à Internet. Sócrates também não enviou mais fotos estilo Sopranos. Mas não sei se chega. Tudo parece apontar para uma copiosa derrota do PS que eu vaticinei aqui neste mesmo blogue no início do ano – não me esqueço porque houve alguns comentadores que espumaram de indignação e a miséria e raiva dos outros é um excelente marcador somático e auxiliar de memória. O que são vitórias se ninguém ficar triste?

Assistimos na Grécia ao curso de formação e reabilitação da extrema esquerda com bons resultados para Tsipras e uma boa parte do Syriza. Passaram de partido de malucos para uma coisa mais normal, embora ainda falte um longo caminho até ao doutoramento. Digamos que vai começar o estágio prático, em que lidarão com greves e corporações qe tudo farão para arrastar a Grécia para o caos. No dia em que Tsipras der a ordem à polícia de choque para carregar numa multidão à qual ele pertenceu há menos de 3 ou 4 anos, poderemos dizer que Tsipras atingiu a maturidade política. Varoufakis e a ala de maluquinhos (que afinal pesaram 3% nas eleições e zero deputados) chumbaram e continuarão, se Deus quiser, a ser irrelevantes. Por cá dissociação entre ideologias e acção / realidade de um partido de poder vai continuar a causar problemas ao PS, independentemente da liderança O PS não é o Syriza pós-eleições sequer, mas o PS vai buscar a sua identidade a uma espécie de esquerda e isso significa que tem de dizer umas imbecilidades, simular uma luta de classes, fazer promessas estúpidas e, sobretudo, a não se conseguir comprometer com cortes de qualquer espécie (que faria inevitavelmente).

O PS precisa conquistar votos ao “centrão” mas também ao Bloco. O Bloco, esse, não se demonstra apto a formar governo com o PS desde que existe. Não posso deixar de ficar perplexo com o radicalismo do Bloco ou de outras experiências de extrema esquerda, mesmo depois da lição Syriza que devia ser, para pessoas íntegras, uma lição pedagógica. Não foi. Acho até que o eleitorado levaria o Bloco mais a sério se achasse plausível que o Bloco formasse governo com o PS. Uma espécie de compromisso, um “melhor do que nada”.

Não consigo entender como em 2015 é possível um partido de gente jovem e alguma muito inteligente e competente, como a Mariana Mortágua, ou pelo menos honesta como a Catarina Martins (que está a fazer uma óptima campanha)ou que teve Francisco Louçã (inteligente, sério, competente, hoje excelente comentador), como é que esta gente, dizia eu, prefere sacrificar espaço de acção real em nome de um radicalismo sectário que sempre que foi aplicado e sempre que será aplicado resultará em opressão das liberdades e definhamento da sociedade em todas as suas variáveis. As ideias económicas do Bloco ou do PCP são a receita da miséria e da opressão e sempre foram.

Existe espaço para uma esquerda e existe espaço e muitos motivos para trabalhar no eixo da diminuição das desigualdades, da solidariedade, do apoio aos desfavorecidos, à educação etc. Existe espaço para o eixo de uma maior transparência e combate à corrupção que foi aliás aquele que os Podemos ou o Syriza cavalgaram. A Mariana Mortágua esteve brilhante nas comissões de inquérito e tal como Louçã passa muito bem a imagem de uma pessoa impossível de corromper (tal como Jerónimo de Sousa). Se se ficassem por aí e por uns compromissos razoáveis em pontos concretos e plausíveis, não vejo porque não poderiam praticamente engolir o PS. Não se entende como depois apresentam ideias e um discurso económico que parece quase um copy paste do PCP na essência. Toda uma geração de jovens idealistas perdida num radicalismo utópico que nem a lição do Syriza serviu para calibrar.

Comunistas. Não vejo grande diferença entre o pensamento do partido comunista português e o motoclube de Faro.

O Livre é uma oportunidade falhada. Para quê, formar um novo partido, se vamos aos bordões do neoliberalismo, dos mercados, da banca, dos 1% para a cultura etc. e repisar a mesma coisa do Bloco e do PCP.

O Agir, se a Joana Amaral se despir mais vezes, talvez consiga conquistar alguns indecisos entre o Livre e o Bloco.

Sobre PSD e CDS, a coligação PAF,são o menos mau, neste momento e há momentos em que isso é mais do que suficiente. Conforme já disse, gosto de Passos Coelho (em termos relativos, pelo menos não o odeio) e comecei por detestá-lo. Devo dizer que sempre detestei todos os líderes do PSD (Cavaco, Santana Lopes, Durão Barroso, Ferreira Leite etc.) Um momento chave foi quando observei o confronto directo de Passos com Salgado. Foi o primeiro que de facto se demonstrou independente do grande banqueiro e se não consigo dizer que com o PS no governo Sócrates estaria na choldra (duvido, basta recordar a relação do execrável Pinto Monteiro e Sócrates) não tenho dúvidas que o que aconteceu a Salgado foi uma pequena revolução no país que seria completamente impossível no tempo de Sócrates ou num hipotético tempo de António Costa. Só tenho pena que Passos, um liberal assumido, tenha cedido às alas conservadoras e reaccionárias do PSD e CDS na questão do aborto e da adopção por casais gay. Perfeito ele não é. Se não conseguiu extinguir o Tribunal Constitucional ou vender a RTP a chineses, pelo menos devia ter insistido numa revisão da constituição portuguesa e feito mais cargas policiais, mesmo sem qualquer manifestação, só porque sim.

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9 thoughts on “eleições, notas, vão-se lixar

  1. Achas que se houvesse guita para meter no bes tinha acontecido a tal “revolução” de que falas?
    Eu tenho todas muitas dúvidas. Não esquecer que o bes era o banco do sistema… O sistema precisa de banco e, sobretudo, de tipos como o salgado. Quem o substituirá?

    Quanto ao facto de passos ser um liberal assumido… “Gostava” de o ter visto governar há 15 anos, por exemplo. Aliás, se ganhar as eleições, o que será, diga-me de passagem e de acordo com o sketch humorístico em que o ps se transformou, totalmente justo, veremos que tipo de “liberal” ele é. Se queres que te diga é isso que mais me irrita em paços (é com ss ou com ç?), o gajo nem é má pessoal, não é estúpido, não cometeu “crimes” (apesar de, aparentemente, ter facilitado; mas como já se disse ninguém chega virgem a primeiro ministro), simplesmente é uma espécie de facilitador/propagandista que navega de acordo com o mainstream. Isso, a longo prazo, é horrível. É um cavaco autentico. Daqui por 20 ou 30 anos vai desdizer-se e contradizer-se totalmente e quando confrontado com as parvoíces que fez enquanto primeiro ministro vai remeter-se ao silêncio.

    fazes observações engraçadas sobre o BE. Catarina Martins tem uma excelente voz para desenhos animados e por isso gosto de a ouvir. Sempre apreciei o Louça. Já da mariana mortágua vejo o mesmo que via naqueles meus colegas pseudo-intelectuais de faculdade que sabiam tudo, tinham os livrinhos todos decorados e que se fartavam de dar graxa aos profs., mas poderei estar a ser injusto.

    1. tudo isso que dizes está muito bem excepto uns pontos. Passos (2 ss) de facto não é plenamente liberal mas o país também faz o político. Só não concordo que navegue pelo mainstream e vi vários exemplos dramáticos disso, como o caso da vacina da hepatite em que diz coisas como “em lado nenhum no mundo se salvam vidas a qualquer custo” enquanto que antónio costa diz que o importante são as pessoas etc. A comparação com Cavaco não é mal pensada.

      1. o homem também disse que ia refundar o estado, algo que, nos tempos que correm, é muito pouco mainstream. Mas, como parece evidente, o gajo enganou-se porque tem uma relação complicada com a língua portuguesa e quando disse que “em lado nenhum no mundo se salva vidas a qualquer custo”, frase horrível, poderia simplesmente estar a querer dizer que “para podemos salvar vidas temos que fazer as coisas como deve de ser e não ceder ao populismo”, frase igualmente patética mas mais aceitável e compreensível na medida em que no mundo surrealista em que vivemos a saúde é um negócio como qualquer outro.

        seja como for, esta campanha está a ser do mais deprimente que há.

        gostava, por exemplo, que alguém fosse ao memorando da troika e, ponto por ponto, ver se as coisas foram cumpridas ou não, se melhorámos ou piorámos.

  2. “como é que esta gente, dizia eu, prefere sacrificar espaço de acção real em nome de um radicalismo sectário que sempre que foi aplicado e sempre que será aplicado resultará em opressão das liberdades e definhamento da sociedade em todas as suas variáveis. As ideias económicas do Bloco ou do PCP são a receita da miséria e da opressão e sempre foram.” – como por exemplo?…

    1. Exemplos mais recentes: Venezuela (mais extremo) e Grécia (menos extremo devido à integração no espaço europeu e moeda única). Cuba, Coreia do Norte, China, todo o bloco de leste, URSS, etc. Mas dá-me tu um exemplo de um país com o modelo do PCP português cuja ortodoxia leninista é quase caso único na europa, onde a coisa seja bestial.

    2. ó vareta, não podemos discutir a roda sempre. O capitalismo não garante liberdade e democracia, como é óbvio e há muitos estados capitalistas disfuncionais (China), mas não tens é nenhum país com liberdade e democracia que não tenha o capitalismo. Não é uma condição suficiente, mas é necessária. O socialismo, pelo caracter evidentemente opressor que tem (a sério, segue o que aconteceu na Venezuela e vê a sobreposição perfeita entre raciocínios de Chavez e os do PCP ou Bloco, e o avanço de um estado totalitário e opressivo)

  3. O que me faz espécie é a facilidade com que manipulas conceitos a favor da tua argumentação. Começando pelo óbvio que subjazia à minha pergunta – o PCP e o Bloco nunca foram governo pelo que será no mínimo especulativo afirmar quais seriam os resultados das suas ideias. Podemos ter uma ideia sobe as ideias, podemos criticá-las e não as querer experimentar, não podemos é vender como certeza a nossa ideia sobre as ideias. Na tua argumentação, parece que capitalismo e socialismo se excluem. Como neto de iletrados que trabalhavam para comer, nessa altura em que o país era capitalista mas não tinha liberdade nem democracia, apenas posso estar grato à mobilidade social que a social-democracia permitiu, quando chegou a Portugal – social-democracia enquanto programa político e não enquanto sinónimo de PSD, entenda-se. Como sabes, trabalho para o Estado e faço-o com grande honra: foi graças à solidariedade dos meus concidadãos actuais e passados, materializada no Estado, que eu tive vacinação gratuita, cuidados de saúde e escolaridade pública com custos que felizmente os meus pais conseguiram suportar. Essa é a realidade que eu experimentei. Se optasse pelo mesmo pendor que tu, diria em tom absoluto que o teu liberalismo é uma receita para o imobilismo social ou para a ascensão dos mais cruéis. Mas não digo, porque ainda não foi experimentado.

    1. Quanto ao PCP e ao Bloco não entendo. Se tu tens partidos que defendem medida A, B e C que foram aplicadas em sítio tal e tal, é legítimo afirmares que até agora essas ideias A B e C redundaram sempre nos resultados tal e coiso. Se te aparece experimentar se desta vez uma ditadura comunista até pode ser boa, força, eu pessoalmente acho que já chega.

    2. Tendo a ser social democrata. Eu considero o liberalismo total utópico, quase tanto como a anarquia, mas é um princípio infalível para problemas concretos. Acho bem que haja redistribuiçao de riqueza porque não quero viver numa sociedade com pessoas com fome o sem instrução. Como eu acho e tu achas, creio que não é pelo estado que a coisa ia abaixo ou deixava de ir. Já agora, os mais ricos são quem mais benificia da educação pública superior, isso é mais do que provado. O facto de Portugal ser dos países da europa com menor mobilidade social devia pelo menos servir-te de “aviso” que se calhar o sistema que tu tanto elogiaste agora mesmo porque correu muito bem contigo, tem problemas.

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