O estranho caso do livro que lia o leitor (capítulo X)

capítulos anteriores:

Capítulo I: Palmier Encoberto

Capítulo IX – Pipoco, o Salgado
Luisinho, de têmporas a latejar e coração na boca, não conseguiu ler o resto da frase, pois tratava-se de uma edição europa américa dos anos 80 que a tia comprou pelo reader’s digest e sucede amiúde as letras ficarem esbatidas, escondendo segredos como velhos pergaminhos. A tia bateu de novo à porta:“Dumbinho, tenho aqui o teu lanche. Posso entrar?” perguntou, agora mais cuidadosa desde que surpreendera o seu ‘dumbinho’ a afagar a trombinha enquanto lia o catálogo de lingerie da Redoute numa manhã de limpezas. A relação entre os dois nunca mais foi a mesma. Ficou sempre aquele silêncio incómodo, aquele eu sei que tu sabes que eu sei, subtil e discreto, como quando a titi lhe perguntava sempre “lavaste bem as mãos?” antes de Luisinho pegar em qualquer coisa lá de casa. “Vou já titi!”, gritou Luisinho. Retirou o monóculo e fazendo dele uma lupa, encostou o vidro ao texto sumido. Conseguiu um vago vislumbre de caracteres, um borrão indefindo, como hieroglífos egípcios.Abriu bem o livro e encostou a folha à janela, à contra-luz do céu de Moscavide e observou de novo, com o monóculo feito lupa sobre o texto. Conseguia agora ler o terrível segredo: “o segredo da caveira é veres mal como a toupeira”

Luisinho gelou. Óculos, não, socorro, nunca. A tia bateu de novo à porta e Luisinho gritou zangado “deixe-me em paz, tia!” A tia assumiu que Luisinho se entregara ao seu vício do costume e afastou-se com o tabuleiro da bolachas, um pouco desgostosa por não ter mão nele desde que a mãe fugira com o cubano de Havana, o professor de salsa latina bissexual.

Luisinho deslizou o monóculo pelas letras agora claras e nítidas com a ajuda da lupa. É só isto, o segredo, interrogou-se, um pouco desalentado. E logo no parágrafo seguinte o livro tinha escrito “E achas pouco meu imbecil? 15 anos e agora deu-te para usar o monóculo do teu avô? Com 4 dioptrias na vista esquerda deves achar que tens imenso estilo, não? Achas bem causares despistes de camiões só porque nem olhas quando atravessas na passadeira? Só vês sombras e mistérios por todo lado porque és quase cego. Cego! Nem me estavas a ler, estavas a inventar tudo. Tu nem sabes ler, Luisinho: eu sou um manual de jardinagem, Luís. Um manual de jardinagem das selecções do Reader’s Digest. Com tanto leitor para eu ler, foste-me logo calhar a mim! Um analfabeto míope suburbano. Nem tens jardim! Nem a merda de um cant…”

Com um clac e uma nuvem de pó, Luisinho fechou o livro. Tinha as palmas das mãos suadas. Foi à janela. Agora que pensava nisso, o que assumiu serem dois diamantes azuis a brilhar alternadamente por cima de uma gigantesca carroça escarlate que levava a sua mãe, a do retrato, e o homem curvado a seu lado, poderia de facto ser um carro dos bombeiros a tentar desencarcerar o José do Talho que ficara debaixo do candeeiro e que reconheceu pelos gritos de socorro, acudam.

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13 thoughts on “O estranho caso do livro que lia o leitor (capítulo X)

  1. Bem que dizia o Pipoco que eu não estva preparada para saber … Mas será o Luisinho verdadeiramente cegueta, ou o olho em que usa o monóloco é … Um olho de vidro ?
    Brutal desenrolar dos acontecimentos! Muito bom 🙂

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